Viagem até Sa Pa
Sa Pa foi, para mim, o destino mais desafiante da viagem. Fomos através de uma Tour do GetYourGuide que já incluía de tudo. Caminhadas, refeições, a noite numa casa de família e transporte de e para Hanói. O pick up aconteceu cedo, ainda com a cidade meio adormecida e levaram-nos até ao sleep bus que nos transportaria durante cerca de cinco horas. Estes autocarros são uma experiência por si só. Em vez de cadeiras tradicionais, têm assentos em forma de cápsulas alongadas onde os passageiros vão praticamente deitados. É confortável, mas também curioso perceber como o Vietname vive as suas viagens de uma forma tão diferente da nossa.
Sabias que?
O ponto mais alto do Vietname é o Monte Fansipan que fica em Sa Pa. Tem 3.143 metros de altura e é conhecido como o “Teto da Indochina”. Durante muitos anos, chegar ao topo era um verdadeiro desafio reservado a trekkers experientes, com caminhadas exigentes que podiam durar dois a três dias por trilhos de montanha e floresta densa. Hoje em dia, existe um teleférico que permite subir até ao topo em cerca de 15 minutos.
Com algumas paragens pelo caminho para ir à casa de banho, chegámos a Sa Pa perto da hora de almoço. Fomos encaminhados para um restaurante onde comemos algo simples antes da caminhada começar. Quando a nossa guia chegou, a Mama Zulu, percebemos logo que seria ela quem tomaria conta de nós durante os dois dias seguintes. Era pequena, magra e com um sorriso tranquilo que parecia conhecer a montanha de olhos fechados.
O percurso
A caminhada começou logo com uma subida em estrada que durou cerca de meia hora. Foi um arranque duro para quem, como eu, já ia nervosa com a ideia de não conseguir acompanhar o grupo. A partir daí entrámos em trilhos de terra batida e foi quando percebi que isto seria muito mais difícil do que imaginava. Passámos por zonas de lama, por trechos escorregadios, por florestas de bambu lindíssimas, por pequenos ribeiros e por descidas em que me faltavam as palavras e me sobrava o medo. Cada vez que me via bloqueada, lá estava a nossa guia, sempre paciente, sempre atenta, a dar-me a mão e a puxar-me quando o caminho não me deixava avançar sozinha. Pelo caminho cruzámo-nos com raparigas da família dela, que também desciam a montanha e que, sem hesitar, me foram ajudando quando me vi mais aflita.
Percurso em Sa Pa
Foram cerca de 10 quilómetros e três horas e meia neste ritmo. Enquanto o Tiago desfrutava das paisagens, eu lutava para não olhar demasiado para o chão nem demasiado para a frente. Sabia que tudo aquilo era lindo, os arrozais em socalcos estendidos pelas montanhas, a neblina que abraçava os vales, o verde quase brilhante que parecia pintado à mão, mas ao mesmo tempo não conseguia absorver a beleza da forma que merecia.
Alojamento
Quando finalmente chegámos à casa da família, já de noite e quase sem forças nas pernas, senti um alívio enorme. A casa era toda de madeira, simples e acolhedora. Cada casal do grupo tinha o seu quarto (eramos 4 casais no total) e podíamos tomar banho e descansar um pouco antes do jantar. Sentámo-nos todos à mesa, a família e os viajantes, com comida caseira preparada pela nossa guia. Aquele momento foi provavelmente o mais bonito do dia. Havia cansaço, claro, mas havia também uma sensação de partilha que só se vive verdadeiramente nestes lugares afastados.
Percurso ao fim do dia
O regresso
Dormimos cedo porque o dia seguinte começou ainda antes do sol nascer, com as galinhas a anunciarem a manhã. O pequeno-almoço estava à nossa espera e em pouco tempo já estávamos prontos para a segunda caminhada. Era mais curta, cerca de 5 quilómetros, mas o corpo ainda não tinha recuperado do dia anterior. Cada subida parecia maior do que era e cada descida tinha um peso dobrado. Ainda assim, havia momentos lindos. Passámos por arrozais, por pontes suspensas e acabámos por almoçar perto de uma cascata linda, onde o som da água tornou tudo um pouco mais leve.
Depois do almoço fomos levados de volta novamente para o sleep bus que nos deixaria novamente em Hanói. A viagem de regresso pareceu mais rápida, talvez porque a adrenalina já tinha passado e o corpo pedia descanso.
Percurso durante o segundo dia em Sa Pa
Conclusão
Para mim, esta experiência foi muito difícil. Fui com medo de não conseguir e acabei por conseguir, sim, mas com muito esforço, com dor, com lágrimas e com momentos de bloqueio. No final senti uma mistura estranha. Por um lado senti-me orgulhosa por ter ultrapassado algo tão exigente. Por outro, fiquei com a tristeza de não ter conseguido apreciar Sa Pa como merecia. Sei que é um lugar de uma beleza enorme, mas para mim ficou marcado mais pelo desafio do que pelo encanto.
Se voltasse a Sa Pa hoje, faria de outra forma. Ficaria num hotel na cidade e caminharia ao meu ritmo pelos arrozais, sem pressas, sem pressão e com tempo para absorver cada paisagem. Seria mais bonito? Não sei. Talvez um dia volte e descubra Sa Pa como sempre imaginei.
