Hanói – O Que Ver e Fazer na Capital do Vietname

Hanoi
Índice

Primeiras impressões

Chegámos a Hanói vindos de Singapura num voo da Scoot e mal aterrámos, já sentíamos que estávamos num mundo completamente diferente. O transfer do aeroporto para o hotel foi pedido diretamente ao hotel através do Booking e assim que chegámos ao Mai Charming Hotel & Spa percebemos que, apesar de simples, tinha uma localização imbatível no coração do Old Quarter. Tínhamos duas reservas separadas, de 15 a 18 e depois de 19 a 20 de setembro, mas quando lá estávamos e por o preço ser baixo (11€ por noite), acabámos por acrescentar também a noite de 18 para 19 na recepção, para podermos deixar ali as nossas coisas enquanto íamos a Sa Pa.

Quarto do Mai Charming Hotel & Spa

Assim que deixámos as coisas no hotel fomos recebidos pela primeira “boas-vindas” clássica do Vietname. As famosas senhoras vendedoras ambulantes, conhecidas como gánh hàng rong, aproximaram-se de nós com um sorriso enorme. Trazem ao ombro o tradicional gánh, o pau de bambu equilibrado com dois cestos onde transportam fruta ou outros produtos, um dos símbolos mais marcantes do país. Convidaram-nos a tirar uma fotografia com o gánh ao ombro. É divertido, claro, mas assim que a fotografia está tirada vem a fruta “de oferta”, que na verdade acaba por ser paga. Caímos no golpe típico do viajante distraído, mas levámos aquilo com humor. Foi a nossa estreia oficial no Vietname e até nos ajudou a entrar no espírito da cidade.

Tiago a segurar o gánh
Tiago a segurar o gánh

E que espírito. Hanói atira-nos para dentro de um caos frenético que funciona com uma harmonia que só quem lá vive consegue explicar. Bandeiras do Vietname por todo o lado, buzinas, motas a passar a centímetros, vendedores de rua, aromas no ar e passeios que raramente servem para caminhar. Entre motas estacionadas, bancas improvisadas e cadeiras de plástico espalhadas, acabámos por andar grande parte do tempo na estrada. Atravessar a rua na primeira vez foi quase uma operação de coragem, mas rapidamente percebemos o segredo. Andar sempre à mesma velocidade, sem hesitações, sem parar. Eles desviam-se de nós com naturalidade, porque também mantêm o ritmo constante. Assim que aceitámos o método, tudo ficou fácil.

Hánoi

Train Street

Durante os dias que passámos em Hanói fomos descobrindo a cidade em vários ritmos e camadas. No próprio dia em que chegámos a Hanói, aproveitámos para fazer uma visita à famosa Train Street, um dos lugares mais surpreendentes da capital. Trata-se de uma rua estreita onde as casas, cafés e pequenas lojas ficam literalmente encostados à linha do comboio. O comboio passa ali mesmo, a poucos centímetros das portas e das mesas, criando uma proximidade que parece impossível até se ver com os próprios olhos.

Train Street
Train Street

A Train Street ganhou fama mundial porque continua a ser uma linha ativa, integrada na ferrovia nacional, mas convive diariamente com a vida do bairro. As pessoas conversam, bebem café, trabalham e só se afastam quando o comboio se aproxima. Tudo funciona numa lógica própria, quase coreografada, e é essa mistura entre o quotidiano local e a adrenalina do momento que faz deste lugar algo tão marcante e hoje em dia repleto de turistas.

Quando chegámos, percebemos logo por que razão se tornou num dos sítios preferidos de tantos viajantes. A rua acolhe-nos com um ambiente descontraído, cafés pequenos com vista privilegiada e uma expectativa crescente à medida que se aproxima a hora do comboio. Basta ouvir a campainha acompanhada do aviso dos moradores para sentir o ambiente a transformar-se. Ficámos completamente rendidos.

Train Street

Horários do Comboio
  • 08h50
  • 09h20
  • 11h52
  • 15h15
  • 15h52
  • 17h40 (sábado e domingo)
  • 18h10 (sábado e domingo)
  • 19h30
  • 21h15
  • 22h00
  • 22h40

(podem variar ligeiramente, mas estes são os horários indicados no local)

Templo da Literatura

No dia seguinte começámos a explorar Hanói pelo Templo da Literatura, um dos lugares mais tranquilos e simbólicos da cidade. Construído no século XI e dedicado a Confúcio, foi aqui que funcionou a primeira universidade do Vietname. Mal passámos o portão principal, percebemos logo que este é um daqueles sítios onde o ritmo abranda sem esforço. O barulho dos carros fica lá fora e tudo se transforma numa sucessão de pátios, jardins, lagos e caminhos cheios de história.

Templo da Literatura
Templo da Literatura

O complexo está organizado em cinco pátios alinhados, cada um com uma atmosfera diferente. Primeiro, portões trabalhados e jardins silenciosos. Depois, lagos com carpas, árvores antigas e edifícios tradicionais que funcionam como pequenos templos. Alguns são dedicados a Confúcio, outros a grandes mestres confucionistas e estudiosos que marcaram a formação intelectual do país. A arquitetura, os altares e o incenso criam um ambiente espiritual que se sente de forma discreta mas muito presente.

Um dos espaços mais marcantes é o das tartarugas de pedra, que seguram estelas com os nomes dos antigos doutores formados na universidade imperial. No Vietname, a tartaruga simboliza sabedoria, longevidade e estabilidade, por isso ver aquelas dezenas de estelas alinhadas dá uma dimensão real da importância deste lugar na história da educação vietnamita.

Tartarugas do Templo da Literatura

Mais à frente chegámos à Sala dos Doutores, um edifício maior que guarda objetos e informações sobre a antiga universidade. Ajuda a imaginar como era estudar ali há séculos atrás, quando o conhecimento e os exames imperiais eram vistos quase como um caminho espiritual.

O Templo da Literatura é um refúgio dentro de Hanói. Calmo, harmonioso e cheio de significado. Foi uma forma perfeita de começar o dia e também uma das visitas que melhor nos ajudou a compreender o lado mais tradicional e académico da cidade.

Templo da Literatura

Informações Úteis
  • Morada: 58 Quốc Tử Giám, Văn Miếu, Đống Đa, Hanói
  • Horário: Todos os dias, das 8h às 17h
  • Preço: 70.000 VND (cerca de 2,60€)
  • Site oficial: vanmieu.gov.vn
  • Observações: Não aceitam cartões, apenas pagamento em dinheiro.

Bairro Francês

Depois de sairmos do ambiente tranquilo do Templo da Literatura, deixámos a cidade guiar-nos até ao Bairro Francês, uma zona que mostra um lado completamente diferente de Hanói. De repente, as ruas ficaram mais largas, as árvores mais altas e a arquitetura começou a contar outra história. É uma parte da cidade onde se nota a influência colonial francesa, mas com aquele toque vietnamita que mantém tudo autêntico.

A Opera House domina a área com uma presença elegante e inesperada. Construída no início do século XX, podia estar facilmente em Paris ou numa capital europeia. A fachada clara, as colunas, as varandas e as escadarias criam um contraste enorme com o ritmo frenético do resto da cidade. Ao caminhar ali, percebemos como Hanói tem várias identidades que convivem lado a lado.

Opera House
Opera House

Catedral de São José

Depois de explorar o Bairro Francês voltámos a aproximar-nos do centro histórico e chegámos à Catedral de São José, um dos edifícios mais inesperados de Hanói. A sensação é mesmo de surpresa. De um lado, uma fachada neogótica que parece deslocada no mapa. Do outro, o caos delicioso da cidade com motas por todo o lado, cafés cheios de vida e vendedores que não param.

A catedral foi construída no século XIX e é um dos símbolos mais claros da influência colonial francesa na capital. A arquitetura, inspirada em Notre-Dame, impõe-se sem esforço, mas o que a torna verdadeiramente especial é o contraste com tudo o que a rodeia. É como se duas cidades coexistissem no mesmo lugar.

Catedral de São José
Catedral de São José

Hoàn Kiếm Lake

Ao longo dos dias que passámos em Hanói fomos sempre parar ao Hoàn Kiếm Lake, mesmo sem grande plano. O lago tem aquela energia que nos puxa de volta, seja para descansar um pouco, observar o movimento ou simplesmente fazer tempo entre visitas. É um dos espaços mais agradáveis da cidade e muda completamente conforme a hora do dia. De manhã há grupos a fazer tai chi, durante a tarde vêem-se famílias e estudantes a passear, e ao final do dia a luz reflete-se na água de forma quase hipnótica.

No centro do lago está a pequena Turtle Tower, que parece flutuar na água. À primeira vista é só um detalhe fotogénico, mas acaba por ganhar outro significado quando se conhece a lenda do lugar. Diz-se que o rei Lê Lợi recebeu aqui uma espada mágica de uma tartaruga divina, com a qual libertou o Vietname dos invasores chineses. Anos mais tarde, voltou ao lago e a tartaruga emergiu para reclamar a espada. O rei devolveu-a e a tartaruga desapareceu nas profundezas. Foi assim que o lago passou a chamar-se Hoàn Kiếm, o Lago da Espada Restituída.

Turtle Tower
Turtle Tower

Complexo de Ho Chi Minh

Depois de explorarmos os bairros, os lagos e o ritmo mais quotidiano da cidade, houve também espaço para conhecer uma Hanói mais política e institucional. Fomos até ao complexo onde se encontra o Mausoléu de Ho Chi Minh, mas a experiência acabou por ser bem diferente do que imaginávamos. O nosso objetivo inicial era visitar a Pagoda de Um Pilar, um dos templos mais emblemáticos da cidade, mas todo o percurso acaba por nos conduzir primeiro pela zona mais controlada do complexo.

Logo à entrada passámos por um controlo de segurança semelhante ao dos aeroportos, com raio-x e revista rigorosa. A partir daí tivemos de deixar as malas num bagageiro, recebendo um número para as levantar apenas no final da visita. As câmaras fotográficas e outro material eletrónico não são permitidos no interior do mausoléu. Foi-nos entregue um saco próprio para colocar o equipamento, que teve de ser entregue num guiché específico antes da entrada. Esse material é depois transportado pelos seguranças e devolvido apenas noutro ponto, já à saída do mausoléu.

O percurso segue sempre em silêncio, em fila, sem nunca parar de andar. Há militares armados ao longo de todo o trajeto, a controlar cada movimento, e não é permitido falar nem desviar-se do grupo. Durante todo o processo não é explicado exatamente o que vamos ver, até entrarmos no edifício principal e nos depararmos, de forma inesperada, com o corpo embalsamado de Ho Chi Minh, preservado em perfeito estado de conservação, exposto num sarcófago de vidro. Foi o momento mais estranho e desconcertante de toda a viagem pelo sudeste asiático!

Maosuleu de Ho Chi Min (Fonte: www.atlasobscura.com)
Maosuleu de Ho Chi Min (Fonte: www.atlasobscura.com)

Foi uma experiência desconfortável, sobretudo porque não tínhamos lido nada sobre esta parte da visita e fomos apanhados completamente de surpresa. Ainda assim, acabou por ajudar a compreender melhor a importância histórica e simbólica desta figura no Vietname. Só depois desse percurso é que conseguimos finalmente visitar a Pagoda de Um Pilar que afinal, era o que queríamos visitar desde o ínicio.

A pagoda é um pequeno templo budista construído sobre um único pilar de pedra, no meio de um lago. Diz-se que representa uma flor de lótus a emergir da água e foi mandada construir no século XI por um imperador que sonhou com a deusa da misericórdia. É simples, delicada e carregada de simbolismo, um contraste total com a rigidez do mausoléu. Acabou por ser um momento mais leve e contemplativo, que fechou a visita ao complexo de forma bem mais serena.

Prisão de Hỏa Lò

A visita à Prisão de Hỏa Lò deixou-nos ainda mais pensativos. Este é um dos lugares mais pesados de Hanói e uma visita que dificilmente deixa alguém indiferente. O nome “Hỏa Lò” pode ser traduzido como “forno ardente” ou “buraco de fogo”, uma referência à antiga zona de fornos de cerâmica que existia aqui antes da construção da prisão. O significado acaba por ser quase premonitório, tendo em conta a história que este lugar viria a carregar.

Entrada da prisão de Hỏa Lò
Entrada da prisão de Hỏa Lò

A prisão foi construída pelos franceses no final do século XIX, durante o período colonial, e ficou conhecida como Maison Centrale. O objetivo era claro… deter, punir e quebrar a resistência dos vietnamitas que lutavam pela independência. As condições eram extremamente duras, com celas sobrelotadas, grilhões, instrumentos de tortura e uma lógica de repressão que marcou profundamente a memória do país.

Anos mais tarde, durante a Guerra do Vietname, o espaço ganhou um novo capítulo da sua história. A prisão passou a ser usada para deter prisioneiros de guerra americanos, sobretudo pilotos abatidos. Foi nessa altura que alguns deles lhe chamaram ironicamente “Hanoi Hilton”, numa tentativa de suavizar, pelo humor, uma realidade que continuava a ser dura e claustrofóbica.

Prisioneiros

A prisão não é grande, mas cada sala pesa. Fotografias, objetos, relatos e recriações das celas mostram de forma crua a violência do período colonial e dos conflitos armados. Tudo é apresentado sem filtros, e não há como passar por ali de forma ligeira. É um espaço que convida ao silêncio e à reflexão, mais do que à curiosidade turística.

Não foi uma visita agradável, mas foi uma visita importante. Ajuda a compreender melhor a história recente do Vietname e o impacto real da ocupação colonial e da guerra na população. Saímos da Prisão de Hỏa Lò com um nó no estômago, mas com a sensação clara de que conhecer Hanói também passa por enfrentar estas memórias mais duras e desconfortáveis.

Prisão

Informações Úteis
  • Morada: 1 Hỏa Lò, Trần Hưng Đạo, Hoàn Kiếm, Hanói, Vietname
  • Horário: Todos os dias, das 8h às 17h
  • Preço: 50.000 VND (cerca de 1,90€)
  • Site oficial: hoalo.vn
  • Observações: A visita é emocionalmente intensa, com fotografias e relatos fortes sobre o período colonial francês e a guerra. Existe informação em inglês e a visita pode ser feita de forma autónoma.

Old Quarter

Entre estas visitas fomos descobrindo o que se tornaria o nosso lugar preferido da cidade… o Old Quarter! A zona mais antiga e tradicional de Hanói, onde a vida local se sente de forma mais intensa e autêntica. É aqui que a cidade acontece sem filtros, num emaranhado de ruas estreitas que durante séculos estiveram organizadas por ofícios e que ainda hoje mantêm esse espírito comercial.

Motoretas na rua
Motoretas na rua

Mas mais do que a história, o que marca o Old Quarter é o ambiente. Motas por todo o lado, lojas minúsculas, vendedores ambulantes, mesas de plástico quase na estrada e aquela mistura caótica que não dá tréguas e que, ao mesmo tempo, tem uma alma contagiante. Foi ali que sentimos Hanói no seu estado mais puro.

Na comida também vivemos descobertas atrás de descobertas. Fomos ao restaurante Tam Vi, com estrela Michelin e, apesar de a comida ser boa, percebemos rapidamente que comer “a sério” em Hanói é sentar-nos nos bancos baixíssimos de plástico, no meio da rua, onde o caos acontece. Dizem que quanto mais baixo o banco, melhor a comida, e confirmámos isso vezes sem conta. O bánh mì ao pequeno-almoço, quase com os pés na estrada, tornou-se um ritual e a melhor maneira de começar o dia. Descobrimos o sabor viciante da manga com chili, açúcar e sal, que nunca tínhamos provado, e apaixonámo-nos pelo egg coffee, que parece estranho mas é maravilhoso. Os fresh spring rolls foram um dos meus pratos preferidos, e os noodles tornaram-se um conforto constante.

Sabias que?

Muitas ruas do Old Quarter começam por “Hàng” que significa “mercadoria” ou “produto”, e cada rua estava tradicionalmente associada a um ofício específico. Ainda hoje existem ruas dedicadas a papel, metal, tecidos ou comida.

A vida no Old Quarter

Entre o caos, o sabor, o calor e a vida incessante, Hanói conquistou-nos de forma imediata. Das grandes cidades que visitámos nesta viagem, foi a nossa preferida. Tem algo de autêntico, de intenso, de vivo. Uma cidade que não tenta ser perfeita, mas que é genuína em tudo. E talvez seja exatamente isso que a torna tão inesquecível.

Bicicleta na rua
Bicicleta na rua

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