Hoi An – A cidade das lanternas que parece saída de um sonho

Restaurante à noite
Índice

Chegada a Hoi An

Depois da tranquilidade de Ninh Binh seguimos viagem até Hoi An, um dos destinos que mais curiosidade nos despertava no Vietname. O voo levou-nos até Da Nang, onde já tínhamos o transfer reservado através do hotel. À chegada ao aeroporto o motorista estava à nossa espera e cerca de 40 a 45 minutos depois estávamos finalmente em Hoi An.

Ficámos no Hoianese Heritage Hotel e como chegámos já bastante tarde, o check-in foi feito de forma autónoma. O hotel tinha-nos enviado previamente todas as instruções, incluindo o código para abrir a porta de entrada. Quando entrámos, as chaves do quarto estavam à nossa espera em cima do balcão da receção. Tudo simples e sem qualquer problema. Só na manhã seguinte fizemos o check-in formal e tivemos então contacto com a equipa do hotel, sempre muito simpática e disponível.

Hoianese Heritage Hotel
Hoianese Heritage Hotel

Depois de deixarmos as mochilas no quarto saímos imediatamente para comer qualquer coisa. Encontrámos uma pequena barraquinha de rua perto do hotel e pedimos um banh mi que nos soube pela vida depois da viagem. Foi uma introdução perfeita à cidade.

Visita ao mercado

No dia seguinte começámos a explorar Hoi An pelo mercado logo de manhã cedo, quando a cidade ainda estava a acordar. Foi uma das melhores formas de entrar no ritmo local. O mercado é um verdadeiro caos organizado, cheio de bancas de fruta tropical, peixe acabado de chegar do rio, legumes, especiarias, ervas aromáticas e comida preparada na hora.

Há movimento por todo o lado. Pessoas a negociar, motas a passar nos corredores mais apertados, vendedores a chamar clientes e cozinhas improvisadas onde se prepara pequeno-almoço logo ali à frente de quem passa. O cheiro das ervas frescas mistura-se com peixe, café vietnamita e comida acabada de cozinhar. É intenso, barulhento e extremamente autêntico.

Vendedoras no mercado

Coconut Boats

Depois fomos fazer uma experiência que reservamos nessa mesma manhã no hotel. Inicialmente tínhamos pensado em irmos de bicicletas alugadas ou de grab. Mas ao pequeno-almoço, vimos informação sobre os coconut boats e decidimos que talvez fosse mais prático e provavelmente mais rápido se reservássemos através do hotel e assim o fizemos. Sinceramente, acho que foi a melhor decisão. À hora combinada com o Hotel, estava um senhor com uma pick-up para nos levar até à zona dos coconut basket boats. Estes barcos são redondos, feitos de bambu que mais parecem umas cestas e que surgiram durante o período colonial francês como forma de evitar impostos sobre embarcações. Hoje continuam a ser usados na pesca tradicional, mas também se tornaram uma das experiências mais curiosas de Hoi An. Felizmente o nosso grupo era pequeno. Éramos apenas dois casais, o que tornou a experiência muito mais tranquila. Cada casal teve o seu barco e durante grande parte do percurso navegámos praticamente sozinhos no rio.

Passeio no coconut boat
Passeio no coconut boat

Mais tarde cruzámo-nos com um grupo enorme onde dezenas de barcos se atrapalhavam uns aos outros, e percebemos que tínhamos tido sorte. O nosso remador era uma verdadeira personagem. Tinha uma coluna portátil a tocar música e em determinado momento estava a passar Vengaboys, o que tornou a situação ainda mais surreal. Era extremamente simpático e entrou completamente na brincadeira.

Remador do coconut basket boat
Remador do coconut basket boat

Durante o passeio tivemos ainda a oportunidade de pescar caranguejos, algo que realmente acontece ali ao contrário da pesca de lulas que tínhamos experimentado em Halong Bay. Apanhávamos os pequenos caranguejos, colocávamo-los num balde e no final todos eram devolvidos à água. A parte mais louca deste passeio é quando os remadores decidem rodar o barcos e ali andamos nós às voltas como naqueles carrosseis que são umas taças ou chávenas.

Homem a rodopiar no coconut boat
Homem a rodopiar no coconut boat

Centro histórico

Depois desta experiência voltámos à cidade para começar a explorar o centro histórico de Hoi An, classificado como Património Mundial da UNESCO.

Pescadores no rio
Pescadores no rio

Hoi An foi durante séculos um dos portos comerciais mais importantes do Sudeste Asiático. Comerciantes vindos da China, do Japão e mais tarde da Europa utilizavam este porto para negociar seda, especiarias, cerâmica e outros produtos. Essa mistura de culturas acabou por marcar profundamente a cidade, razão pela qual hoje encontramos tantas influências chinesas e japonesas na arquitetura e na história local. Uma das razões para o centro histórico de Hoi An estar tão bem preservado é o facto de a cidade ter escapado em grande parte à destruição da Guerra do Vietname. Como o comércio marítimo já se tinha deslocado para Da Nang séculos antes, Hoi An deixou de ter importância estratégica e acabou por não sofrer bombardeamentos significativos.

Rua de Hoi An
Rua de Hoi An

Sabias que?

Os portugueses foram dos primeiros europeus a chegar aqui no século XVI, ajudando a integrar a cidade nas rotas comerciais entre a Europa e a Ásia. Missionários portugueses tiveram também um papel importante no desenvolvimento do sistema de escrita vietnamita baseado no alfabeto latino, que ainda hoje é usado no país.

Para visitar muitos dos edifícios históricos da cidade é necessário comprar um bilhete de acesso ao centro antigo. O bilhete custa 120.000 dongs por pessoa (cerca de 4€) e permite visitar cinco locais históricos à escolha entre templos, casas antigas, assembly halls, museus e até um espetáculo tradicional vietnamita no Hoi An Traditional Art Performance House. Este sistema ajuda a preservar o património da cidade e a financiar a manutenção dos edifícios históricos. Estes bilhetes não são verificados em todas as ruas, apenas quando se entra nos edifícios históricos ou nas atrações incluídas.

O espetáculo tradicional acontece num pequeno teatro junto ao rio e inclui música tradicional vietnamita, dança, instrumentos típicos e performances culturais ligadas ao centro do Vietname. É uma forma interessante de conhecer um pouco melhor a cultura local e acaba por ser uma das utilizações mais diferentes que se pode dar a um dos cinco acessos incluídos no bilhete.

Traditional Art Performance House
Traditional Art Performance House

Comprámos os bilhetes de acesso ao centro histórico numa bilheteira perto do Portão Chua Ba Mu, um dos pontos de entrada mais conhecidos da cidade e foi por aqui mesmo que começámos, um dos cenários mais fotogénicos de Hoi An. Este portão fazia parte de um antigo complexo religioso dedicado a divindades taoístas e hoje destaca-se pela sua arquitetura elegante e pelos reflexos na água em frente.

Chua Ba Mu
Chua Ba Mu

Visitámos o Cantonese Assembly Hall, construído pela comunidade chinesa originária de Cantão. O templo é dedicado a Quan Cong, uma figura histórica muito respeitada na cultura chinesa, associada à lealdade, justiça e proteção dos comerciantes. No interior destacam-se os detalhes ornamentais, os altares decorados e os enormes incensos em espiral suspensos no teto, que criam uma atmosfera muito própria. Estes incensos podem arder durante vários dias seguidos e muitas pessoas deixam-nos ali como forma de oração ou pedido de proteção e prosperidade.

Carla no Cantonese Assembly Hall
Carla no Cantonese Assembly Hall

As assembly halls funcionavam como centros comunitários das comunidades chinesas que viviam e trabalhavam em Hoi An. Eram locais de reunião, de apoio aos comerciantes e também templos dedicados a divindades protetoras. Cada comunidade chinesa tinha o seu próprio espaço, o que explica a existência de vários destes edifícios espalhados pela cidade.

Passámos também pelo Fujian Assembly Hall, provavelmente o mais impressionante de todos. Foi construído pela comunidade chinesa da província de Fujian e é dedicado à deusa do mar, protetora dos navegadores e comerciantes. O enorme portão de entrada, os pátios interiores e os detalhes decorativos fazem deste um dos edifícios mais bonitos do centro histórico.

Fujian Assembly Hall

Passámos também pelo Hoa Van Le Nghia, um espaço cultural de influência chinesa muito mais tranquilo do que outras zonas do centro histórico. Os pátios interiores, os detalhes em madeira e a arquitetura tradicional criam um ambiente sereno, quase escondido no meio da agitação de Hoi An.

Trung Tam Hoa Van Le Nghia
Trung Tam Hoa Van Le Nghia

Outro dos símbolos da cidade é a famosa Japanese Bridge, uma ponte coberta construída no século XVII pela comunidade japonesa que se estabeleceu em Hoi An durante o auge do comércio marítimo. A ponte servia originalmente para ligar os bairros japonês e chinês da cidade e tornou-se um dos ícones arquitetónicos de Hoi An. É um dos monumentos mais emblemáticos da cidade e representa bem a mistura cultural que sempre caracterizou este antigo porto comercial.

Ponte Japonesa à noite
Ponte Japonesa à noite
Interior da Ponte Japonesa
Interior da Ponte Japonesa

Entrámos ainda em duas das casas tradicionais (old houses) mais conhecidas do centro histórico. A Phung Hung Old House e a Tan Ky Old House, ambas com mais de dois séculos de história. Estas casas antigas pertenciam a famílias de comerciantes ricos que viviam e trabalhavam em Hoi An durante os séculos XVII e XVIII. São edifícios estreitos e profundos, construídos com uma mistura de estilos arquitetónicos vietnamitas, chineses e japoneses. No interior ainda se encontram móveis antigos, objetos de comércio e pátios interiores que ajudavam a ventilar a casa durante os meses mais quentes.

Tan Ky Old House
Tan Ky Old House

Sabias que?

As casas antigas de Hoi An são muito estreitas na frente mas bastante profundas porque os impostos eram calculados com base na largura da fachada virada para a rua, levando os comerciantes a construir casas estreitas mas compridas, muitas vezes com pátios interiores para garantir luz e ventilação.

Enquanto caminhávamos pelas ruas do centro histórico reparámos também em várias marcações nas paredes das casas que indicam até onde a água já chegou durante grandes cheias. Hoi An fica junto ao rio Thu Bon e as inundações fazem parte da história da cidade há séculos. Curiosamente, poucas semanas depois de termos visitado a cidade houve novamente uma cheia que atingiu níveis recorde.

A meio do dia parámos para almoçar no Khong Gian Xanh (sugestão da recepcionista do hotel), onde provámos um dos pratos mais típicos da cidade, o Cao Lau. Foi uma das melhores refeições que tivemos em Hoi An. A combinação de noodles, carne, ervas e molho cria um prato cheio de sabor e completamente diferente do resto da cozinha vietnamita. Experimentámos também uma bebida muito refrescante feita com limão e pétalas de rosa, uma especialidade local surpreendentemente deliciosa. Trà hoa hồng é refrescante e aromática o que cai sempre bem neste calor.

Cao Lau
Cao Lau

Também bebemos dois cafés que acabaram por ser agradáveis surpresas, o coconut coffee e o salted coffee, ambos muito populares no Vietname. Pedimos o café de coco mais pela curiosidade e por ser algo típico local, até porque nem eu nem o Tiago gostamos particularmente de coco. Mas a verdade é que acabou por surpreender. O sabor do coco era bastante subtil e misturava-se muito bem com o café, criando uma bebida cremosa e fresca sem se tornar demasiado doce ou intensa. Ainda assim, o que mais nos marcou foi mesmo o salted coffee. À primeira vista parece estranho imaginar café com sal, mas o equilíbrio entre o doce, o salgado e o café funciona incrivelmente bem. 

Café de coco e café salgado
Café de coco e café salgado

Hoi An à noite

Mas… é ao cair da noite que Hoi An se transforma completamente…

Quando as lanternas se acendem ao cair da noite percebemos porque Hoi An é conhecida como a cidade das lanternas. Esta tradição remonta aos séculos em que a cidade era um grande porto comercial. Os comerciantes chineses acreditavam que as lanternas traziam boa sorte e prosperidade, e começaram a colocá-las à entrada das casas e das lojas. Com o tempo esta tradição tornou-se um símbolo da cidade e hoje as lanternas fazem parte da identidade visual de Hoi An.

Lanternas
Lanternas

À noite, centenas de lanternas coloridas iluminam as ruas do centro histórico e refletem-se na água do rio, criando um ambiente quase irreal. Hoi An ganha uma energia completamente diferente, mais calma, mais romântica e cheia de cor… criando um cenário difícil de descrever.

Restaurantes à noite

Foi também à noite que fizemos o passeio de barco no rio com lanternas, uma das experiências mais conhecidas da cidade (170.000 dongs mais 2 lanternas a 40.000 dongs que deu cerca de 7€ tudo). Pequenos barcos deslizam lentamente pela água enquanto as pessoas soltam lanternas iluminadas que vão flutuando pelo rio. As pequenas lanternas que as pessoas deixam flutuar no rio têm também um significado espiritual. Na tradição local acredita-se que este gesto ajuda a libertar preocupações e a atrair boa sorte, sendo comum fazer um pequeno desejo antes de deixar a lanterna seguir corrente abaixo.

Barcos à noite
Barcos à noite
Carla a largar uma lanterna
Carla a largar uma lanterna

Visualmente é um cenário lindíssimo e extremamente romântico. As luzes refletidas na água, as lanternas coloridas e o ambiente da cidade criam uma atmosfera muito especial. Mas ao mesmo tempo existe também um lado mais caótico. Há tantos barcos, tantos turistas e tanta gente a tentar viver exatamente o mesmo momento ao mesmo tempo que, por vezes, parte da magia acaba por se perder um pouco. Ainda assim, continua a ser uma experiência icónica de Hoi An e algo que vale a pena viver pelo menos uma vez.

Barcos durante a noite

Depois do passeio acabámos simplesmente por nos perder pelas ruas de Hoi An. E foi aí, longe da confusão dos barcos, que sentimos verdadeiramente a atmosfera da cidade. As lanternas a iluminar fachadas antigas, o reflexo das luzes dançava na água e as ruas enchiam-se de música, cheiro a comida e pessoas a passear sem pressa. Havia vida por todo o lado, mas ao mesmo tempo uma calma difícil de explicar.

Rua à noite
Rua à noite

Alfaiatarias

A cidade é também famosa pelas suas alfaiatarias. A tradição vem dos tempos em que era um grande porto comercial e os viajantes precisavam de roupa rapidamente feita antes de voltar ao mar. Ainda hoje é possível mandar fazer fatos ou vestidos feitos à medida em apenas um ou dois dias

Alfaiataria
Alfaiataria
Interior de alfaiataria
Interior de alfaiataria

Conclusão

Hoi An foi uma das cidades que mais nos encantou em todo o Vietname. Tem história, tem beleza, mas acima de tudo tem atmosfera. Há qualquer coisa naquela mistura de lanternas, ruas antigas, rio e vida tranquila que nos faz abrandar sem dar conta.

E à noite… à noite transforma-se num daqueles lugares que ficam connosco muito depois da viagem acabar. Foi talvez a minha cidade preferida de toda a viagem…

Ciclista em Hoi An
Ciclista em Hoi An

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