Rumo ao sul
Depois de dias intensos no norte da Noruega, entre auroras boreais, renas e a sensação de termos chegado ao fim do mundo no Cabo Norte, chegou a hora de apontar a bússola para sul. Tínhamos pela frente mais de dois mil quilómetros até Oslo, mas não se tratava de um simples regresso. Era ainda uma continuação da aventura, e, tal como o norte nos tinha surpreendido, o sul da Noruega tinha reservado paisagens completamente diferentes, momentos inesperados e até algumas das maiores gargalhadas da viagem.
Se está a chegar agora a este post, talvez queira primeiro espreitar a nossa jornada até ao Cabo Norte, onde falamos do voo, da autocaravana (a nossa Maria Rita), das paisagens do norte, das Ilhas Lofoten, das auroras e das renas. Pode encontrar tudo isso neste post.
Neste novo capítulo, partimos já do topo da Europa, atravessámos vales recortados por cascatas, encontrámos casas de banho com arquitetura que dava vontade de parar mesmo sem vontade e terminámos na cidade que nos viu chegar: Oslo. O norte tinha-nos marcado pela grandiosidade e pelo silêncio; o sul revelou-se mais variado, com um lado humano mais presente e uma natureza que ora sussurrava, ora nos deixava boquiabertos.
Hell Station
Já com alguns kms percorridos, a cerca de 30 km de Trondheim, encontrámos uma pequena estação de comboios perdida no tempo, sem grandes encantos nem movimento. À primeira vista, parecia apenas mais um daqueles locais anónimos que se cruzam pelo caminho. Mas tinha um detalhe que a tornava especial… o nome: Hell Station.
Podemos agora dizer, com toda a pompa, que fomos ao inferno… e voltámos.
Claro que tudo isto tem uma explicação mais terrena. “Hell”, em norueguês antigo, significa gruta ou encosta rochosa. Portanto, para os locais, este nome não tem nada de diabólico. É apenas mais uma estação entre tantas. mas para quem vem de fora, é impossível resistir a uma fotografia junto ao letreiro.
Atlantic Ocean Road
A visita à estação de Hell serviu-nos de pausa divertida na viagem, mas a estrada chamava por nós e, na Noruega, seguir caminho é quase sempre sinónimo de mais beleza pela frente. Continuámos a descer rumo a sul. E foi nessa rota que nos cruzámos com uma das estradas mais extraordinárias da nossa viagem… a Atlanterhavsveien.
A Estrada do Atlântico (Atlanterhavsveien) é uma das mais icónicas da Noruega. E arriscamos mesmo dizer, do mundo. Com apenas 3,8 km de extensão, liga pequenas ilhas ao largo da costa oeste, entre Molde e Kristiansund, através de oito pontes que parecem desafiar a lógica. Faz parte de uma Rota Cénica Nacional e é daquelas estradas que se tornam um destino por si só.
A ponte mais famosa do trajeto é a Storseisundet Bridge, com a sua forma arqueada e quase surreal. Vista de certos ângulos, cria uma ilusão ótica que dá a sensação de terminar no ar, como se quem a atravessa fosse lançado diretamente para o mar. Esse efeito visual tornou-a protagonista de inúmeros anúncios de automóveis e até de filmes, como o James Bond – No Time to Die (2021).
Quando lá chegámos, ficámos na dúvida se era mesmo aquela ponte, porque ao início não se via a famosa curvatura. Mas bastou atravessá-la e olhar para trás e lá estava ela, exatamente como nas fotografias… uma ilusão quase perfeita.
Apesar de ser tecnicamente segura e bem conservada, a Atlantic Ocean Road é frequentemente mencionada em listas de estradas mais perigosas do mundo, mas isso deve-se ao seu cenário: mar aberto, ventos fortes, trovoadas repentinas e, em dias de tempestade, ondas que chegam mesmo a rebentar sobre a estrada.
No nosso caso, apanhámos um pouco de chuva e o mar agitado, mas sem grande violência. o suficiente para sentir o poder da natureza sem deixar de apreciar o percurso com tranquilidade. Em 2005 foi eleita como a construção norueguesa do século pelo sector da construção civil e em 2006 o jornal britânico The Guardian considerou-a a melhor viagem de carro do mundo.
É esse contraste entre beleza e brutalidade, entre engenho humano e força dos elementos, que torna a Atlantic Ocean Road tão inesquecível. Percorrê-la é atravessar um cenário quase cinematográfico, onde cada curva é uma surpresa e cada ponte parece desenhada para fazer o coração bater um pouco mais depressa.
Trollstigen – A Estrada dos Trolls
Depois de atravessarmos a Atlantic Ocean Road continuámos a serpentear pela costa oeste da Noruega. A cada curva, o país parecia reinventar-se.
Fizemos uma pausa já perto do início da próxima aventura, estacionando a autocaravana numa área tranquila para passar a noite. Estávamos cansados e sabíamos que o que nos esperava no dia seguinte merecia ser vivido com energia renovada. Dormimos com a expectativa de quem sabe que está prestes a entrar num dos cenários mais icónicos do país.
E foi então que nos aproximámos de um lugar onde a estrada parece ter sido construída por mãos invisíveis, ou talvez por criaturas saídas de contos antigos. À nossa frente tínhamos a Trollstigen, uma estrada lendária, esculpida na encosta da montanha e que nos transporta para o lado mais místico da Noruega.
A Trollstigen, ou “estrada dos trolls” é também parte de uma Rota Cénica Nacional e foi construída nos anos 30, atravessando um terreno abrupto com uma inclinação de 9% em ziguezague. O traçado serpenteia a encosta da montanha com 11 curvas em cotovelo que desenham uma espiral vertiginosa. Vista de cima, parece uma estrada feita por mãos de gigantes, ou quem sabe pelos próprios trolls que lhe deram o nome.
A beleza da paisagem é tal que para percorrer os cerca de 5 km até ao Trollstigen Center demorámos quase 1h30. Era quase obrigatório parar em todos os recantos para fotografar. Logo no início do percurso, o rio alimentado pela poderosa cascata Stigfossen, acompanhava-nos do lado esquerdo, caindo dos 320 metros de altura com uma força que se ouvia a cada curva.
A dada altura, atravessámos uma pequena ponte mesmo ao lado da cascata. Um vislumbre do que estava por vir. Chegar ao topo, ao Trollstigen Center, foi como alcançar um santuário natural. Apesar de estar fechado (provavelmente também devido ao Covid-19), o edifício moderno e discreto, com loja, café e posto de informação, encaixa-se na paisagem sem a agredir.
Do centro seguimos a pé até ao miradouro, uma estrutura construída como se saísse da terra, um passadiço que se projecta sobre o vazio. O chão em grelha deixa ver o fundo do precipício e mesmo com alguma vertigem, não conseguimos resistir a espreitar. Lá em baixo o vale abria-se num verde profundo, com a cascata mesmo ao lado a acompanhar-nos com o seu rugido constante. Foi um daqueles momentos em que a natureza e a arquitetura se encontram em harmonia absoluta.
A Trollstigen é uma estrada sazonal, geralmente encerrada entre outubro e maio devido à neve. Conduzi-la é uma experiência intensa, quase simbólica, como se nos cruzássemos com os mitos e lendas da Noruega. E não é só uma metáfora: segundo as histórias antigas, esta zona era (ou ainda é?) habitada por trolls, essas criaturas lendárias que vivem nas montanhas. Quem sabe se algum deles não nos observou do alto, entre as pedras, enquanto passávamos?!
Trolls – Guardiões da montanha e da imaginação
Na Noruega, os trolls são muito mais do que bonecos nas prateleiras das lojas de souvenirs. São criaturas lendárias que habitam o imaginário coletivo há séculos. Guardiões das montanhas, habitantes de grutas sombrias, senhores das florestas densas. Diz-se que vivem onde o solo treme, no eco das encostas e no silêncio pesado dos vales profundos. E embora hoje nos pareçam figuras simpáticas e caricaturais, os trolls originais estavam longe de ser amigáveis.
Na mitologia nórdica, vivem milhares de anos, entre mil e doze mil para sermos precisos, e acumulam histórias de hábitos grotescos e aparências desajeitadas: orelhas e narizes descomunais, caudas de animal, vestes esfarrapadas e gostos culinários pouco recomendáveis (sim, carne humana incluída). Diz-se que ao primeiro raio de sol viram pedra e, se forem atingidos por um relâmpago podem até explodir. Os sinos da igreja fazem-nos perder os poderes e, segundo o folclore, se beberem leite materno humano, tornam-se invisíveis podendo então entrar e sair de casa sem usar portas nem janelas. A sério!
São também mestres do caos, roubam colheitas, assustam aldeias inteiras, pregam partidas e arrasam casas mal construídas demasiado próximas das montanhas. E as fêmeas? Há quem diga que raptam bebés humanos para os criar como seus, única forma de gerar descendência.
Apesar de tudo isto soar saído de um conto antigo, o mais curioso é que, até à década de 1970, os relatos de avistamentos reais ainda eram comuns. E mesmo que ninguém os veja… não é difícil encontrar quem acredite. Os trolls tornaram-se um símbolo daquilo que é misterioso, indomável e profundamente ligado à natureza norueguesa.
Por isso, se vir um troll à beira da estrada, à entrada de uma floresta ou à porta de um restaurante… pense duas vezes antes de rir. Pode não ser apenas decoração. Pode estar só à espera do anoitecer para voltar à vida.
Rio Stryn
Depois de subirmos a Trollstigen e atravessarmos mais alguns vales, seguimos em direção a Stryn, onde nos esperava mais uma paisagem que tínhamos descoberto através de fotografias aéreas. O objetivo era claro: ver com os nossos próprios olhos (e com o drone, claro) as curvas do Rio Stryneelva a serpentear entre montanhas e campos verdes.
Com cerca de 8 quilómetros de extensão, este rio nasce num lago, percorre o vale de Strynedalen com um traçado sinuoso e vai desaguar no Nordfjorden, mesmo junto à vila de Stryn. É considerado um dos melhores rios de salmão da Noruega, mas o que nos trouxe até aqui não foram os peixes, foram as imagens impressionantes do seu curso visto do céu.
Quando chegámos, o tempo não estava propriamente a colaborar. Chovia e o vento não ajudava muito, por isso esperámos pacientemente por uma aberta. Queríamos mesmo ver se aquele cenário de postal era tão incrível no ecrã do nosso telemóvel como nas fotos que tínhamos visto antes de partir. Quando finalmente o tempo colaborou connosco, vimos que sim, era mesmo um cénario de postal.
Miradouro Stegastein
Depois de explorarmos o vale de Stryn e o seu rio serpenteante, continuámos viagem em direção a Aurland. A estrada começou a subir, o cenário foi mudando e pouco depois estávamos à beira de um dos miradouros mais emblemáticos da Noruega: o Stegastein.
O miradouro de Stegastein é daqueles lugares que nos fazem sentir pequenos perante a grandiosidade da natureza. Situado a 650 metros de altitude, suspenso sobre o fiorde de Aurland, este passadiço de madeira e aço lança-se 30 metros montanha fora, terminando num painel de vidro inclinado para a frente que provoca um misto de vertigem e admiração. A inclinação dá a sensação de que nada nos separa do abismo, um efeito que assusta os mais sensíveis mas que torna a experiência absolutamente memorável.
Mais do que um simples ponto de observação, o Stegastein é também um exemplo de arquitectura integrada na paisagem. O seu design moderno e minimalista, feito com materiais naturais, foi pensado para dialogar com a natureza envolvente sem a dominar. É como se a estrutura prolongasse a própria montanha em direcção ao fiorde.
Em dias claros, a vista é de cortar a respiração. No nosso caso, o cenário foi outro… e talvez ainda mais especial. Chovia e o nevoeiro cobria o fiorde como um véu, escondendo a paisagem que tantas vezes aparece em postais. Decidimos esperar. Aos poucos, a chuva abrandou, o nevoeiro dissipou-se e como por magia surgiu um arco-íris entre as montanhas, pintando o céu com cores suaves sobre o cinzento ainda húmido. Foi um daqueles momentos inesperados que tornaram a viagem memorável, não pela paisagem perfeita, mas pela surpresa da natureza a mostrar-se nos seus próprios termos.
Cascatas
Depois de sairmos do miradouro de Stegastein, voltámos à estrada e a Noruega não nos deixava abrandar o ritmo da admiração. Se até ali já tínhamos visto quedas de água a surgir por todo o lado, como se os montes chorassem discretamente pelas encostas abaixo, o que vinha a seguir eram verdadeiros espetáculos naturais.
Na Noruega, onde há um rio, um fiorde, um glaciar ou uma montanha, há quase sempre uma fossen (cascata) para completar o cenário. E embora muitas apareçam de surpresa à beira da estrada, há algumas que ganham protagonismo e se tornam parte da viagem. Três delas marcaram o nosso percurso pelo sul: Låtefossen, Tvindefossen e Steinsdalsfossen. Três cascatas, três personalidades distintas e três episódios que não vamos esquecer tão cedo.
Låtefossen
Perto de Odda, encontra-se a imponente Låtefossen – impossível de ignorar. Esta cascata dupla, com cerca de 165 metros de altura, é formada pela junção de dois braços do rio Austdølo que descem em paralelo pela encosta até se unirem sob uma antiga ponte de pedra com seis arcos. Atravessar aquela estrada nacional 13 é uma experiência que mistura adrenalina e encantamento, especialmente com a água a salpicar diretamente para o asfalto. Foi ali que dormimos nessa noite… ou, pelo menos, tentámos. O barulho ensurdecedor da água a cair tornou-se a nossa banda sonora noturna e, mesmo com o cansaço acumulado, adormecer não foi fácil. Mas acordar ali, no meio daquela força bruta da natureza, teve algo de mágico.
Tvindefossen
Perto de Voss, encontrámos aquela que para mim, é a mais bonita das três cascatas que visitámos: a Tvindefossen. Com cerca de 110 metros de altura, destaca-se pela sua elegância. A água escorre em camadas largas pela encosta rochosa como se fosse um véu. Mas o encanto durou pouco. A chuva teimava em cair, e como já é tradição, fui eu a cobaia de escala do Tiago. Encharcada como um pinto lá fui aproximar-me o mais possível da cascata, só para ele conseguir aquela fotografia que mostrasse a diferença de tamanho entre mim e o monstro de água. A imagem ficou. A roupa molhada também. E a memória de mais uma “grande ideia” fotográfica… essa, ainda hoje é tema de conversa.
Steinsdalsfossen
Talvez a mais divertida das três, a Steinsdalsfossen permite-nos passar por trás da cascata sem nos molharmos. Bom… isso é o que dizem. Nós passámos, sim e confirmamos que é uma experiência fantástica. Ouvir e sentir a água a cair ali tão perto, sem barreiras e sem nos encharcarmos. Mas o que é que o Tiago fez? Exactamente! Pediu-me para ir lá para a frente junto dela, mais uma vez, para mostrar a escala nas fotografias. Resultado? Nova molha, mas desta vez com sorriso incluído. Já nem me dei ao trabalho de protestar. Há memórias que valem mais do que roupa seca…
Stavanger
Depois de dias a viver a força da natureza, a tentar dormir ao som de cascatas e a colecionar memórias encharcadas, voltámos à estrada rumo a sul. A próxima paragem era bem diferente: uma cidade onde a história se impõe com espadas cravadas na rocha. Chegávamos a Stavanger.
Sverd i fjell
Em Stavanger encontrámos um dos monumentos mais emblemáticos da Noruega: três espadas gigantes de bronze cravadas numa encosta rochosa junto ao fiorde. Cada uma tem cerca de 10 metros de altura e o conjunto foi inaugurado em 1983 para assinalar a Batalha de Hafrsfjord, travada no ano 872, onde o rei Harald Harfagre unificou o país sob uma única coroa, tornando-se o primeiro rei da Noruega.
As espadas representam paz, unidade e soberania. A maior simboliza o rei vitorioso, enquanto as duas mais pequenas representam os reis derrotados. Estão cravadas na rocha como um gesto simbólico: nunca mais serão empunhadas. Um monumento que, mais do que celebrar a vitória, marca o fim da guerra e a consolidação da paz.
Brutt lenke
Este monumento em forma de corrente com um elo partido (broken lenk foi inaugurado a 20 de março de 1986. Com cerca de 4 metros de altura e 6 metros de largura, presta homenagem às vítimas do pior acidente da história da indústria petrolífera norueguesa. A 27 de março de 1980, durante uma tempestade no Mar do Norte, a plataforma residencial Alexander L. Kielland colapsou, provocando a morte de 123 trabalhadores. Apenas 89 sobreviveram. A tragédia foi causada por uma fratura num dos tirantes, que levou ao colapso de uma das cinco colunas de sustentação da plataforma, desequilibrando toda a estrutura.
O desastre abalou profundamente a Noruega e marcou para sempre a memória coletiva da cidade de Stavanger, onde viviam muitos dos trabalhadores e para onde vários deviam regressar. Não é por acaso que Stavanger é considerada a capital do petróleo da Noruega. É aqui que se concentram muitas das operações ligadas à indústria petrolífera do país, incluindo a sede da Equinor (antiga Statoil), a maior empresa petrolífera da Noruega e uma das maiores da Europa.
O monumento representa simbolicamente a rutura da segurança e a perda de vidas humanas que sustentavam esta indústria. Ao lado do elo partido encontra-se uma pedra memorial com os nomes de todas as 123 vítimas. Quando lá estivemos, não havia nenhuma explicação detalhada no local, apenas a indicação de que era um memorial. Foi ao vermos os nomes gravados que sentimos que algo grave se tinha ali passado. A curiosidade levou-nos a pesquisar online e assim, descobrimos a história do acidente e também que na cidade, existe o Museu Norueguês do Petróleo onde estão em exposição os fragmentos torcidos da própria plataforma.
Sabias que?
A Noruega só descobriu petróleo em 1969?
Até ao final da década de 1960, a Noruega era um país relativamente pobre da Europa, com uma economia baseada sobretudo na pesca e numa agricultura limitada pelas duras condições geográficas.
Tudo mudou quando, em 1969, a empresa americana Phillips Petroleum descobriu o campo de Ekofisk, um dos maiores campos petrolíferos do Mar do Norte.
Essa descoberta marcou o início de uma nova era. De um dia para o outro, a Noruega viu-se sentada sobre uma fortuna submersa. Stavanger, uma cidade até então tranquila e pouco relevante, transformou-se rapidamente na capital da indústria petrolífera norueguesa.
A exploração começou oficialmente em 1971, e desde então o petróleo passou a ser o motor da economia do país. No entanto, ao contrário de muitos países produtores de petróleo, a Noruega tomou decisões políticas e económicas estratégicas para garantir que a riqueza fosse distribuída de forma justa e sustentável.
Norsk Oljemuseum
Como já referi antes, a nossa visita ao Museu Norueguês do Petróleo em Stavanger começou de forma inesperada. Estávamos junto ao monumento da corrente com o elo partido quando decidimos pesquisar mais sobre aquela tragédia. Foi assim que descobrimos não só o peso daquela história, mas também que Stavanger é conhecida como a capital do petróleo da Noruega. E, como se não bastasse, a poucos passos de onde estávamos existia um museu totalmente dedicado a esse capítulo fundamental da identidade do país. No interior do museu, encontrámos um fragmento real da estrutura deformada da plataforma Alexander L. Kielland que colapsou no Mar do Norte em 1980, provocando a morte de 123 trabalhadores. Ver aquele pedaço de metal torcido e retorcido, ali exposto, foi um lembrete brutal e silencioso do que está em jogo nesta indústria.
Sem hesitar, seguimos até ao Norsk Oljemuseum, instalado num edifício moderno junto ao porto, cuja arquitectura evoca uma plataforma petrolífera flutuante. O museu surpreendeu-nos logo à entrada. Muito mais do que uma coleção técnica, é uma verdadeira viagem pela história, pelos desafios e pelas consequências da indústria do petróleo no Mar do Norte.
Percebemos como a descoberta de petróleo em 1969 transformou a Noruega num dos países mais prósperos do mundo, mas também como essa riqueza foi conquistada com trabalho árduo, inovação e riscos imensos. O museu transmite uma noção muito realista da vida numa plataforma: as temperaturas extremas, os ventos cortantes, a bravura exigida por este mar. Embora seja um trabalho bem remunerado, é também repleto de perigos.
Vimos vários tipos de plataformas, cabines de controlo, robôs subaquáticos, veículos de resgate, cápsulas de sobrevivência, brocas gigantes, e referências a acidentes marcantes como o de 1980. Descobrimos também que, cientes de que este recurso é limitado, os noruegueses criaram o Fundo Soberano do Petróleo — uma forma de garantir o bem-estar das gerações futuras.
Museu do Petróleo
A Noruega tem uma relação ambivalente com esta indústria. Por um lado, contribui significativamente para a riqueza nacional. Por outro, há uma consciência ecológica muito presente e uma certa culpa por basear parte da prosperidade numa actividade tão perigosa quanto poluente. Há uma frase no museu que nos ficou na memória:
“Os noruegueses não sabem se o petróleo é uma bênção ou uma maldição.”
Sabias que?
A Noruega tem o maior fundo soberano do mundo?
O Fundo de Pensões do Governo da Noruega, mais conhecido como Fundo Soberano Norueguês, foi criado em 1990 com um objetivo muito claro: assegurar o bem-estar das futuras gerações quando o petróleo deixar de jorrar. Todos os lucros provenientes da exploração petrolífera no Mar do Norte são investidos em empresas e ativos espalhados por todo o mundo.
Hoje, o fundo ultrapassa 1,5 biliões de dólares (mais de 1 trilião de euros), tornando-se o maior fundo soberano do planeta. Só para ter uma ideia, é dono de cerca de 1,5% de todas as ações cotadas nas bolsas mundiais.
Apesar da sua origem estar no “ouro negro”, o fundo segue uma política de investimento ética e sustentável, evitando empresas que violem direitos humanos, causem danos ambientais graves ou estejam ligadas à produção de armas controversas. Esta estratégia tornou-se uma referência mundial sobre como transformar riqueza de recursos naturais em valor a longo prazo de forma responsável.
Preikestolen
Deixámos para trás a dureza metálica das plataformas e a história industrial do petróleo norueguês. Era tempo de voltar à natureza. Seguimos viagem em direcção à Preikestolen, a famosa Pedra do Púlpito como também é conhecia. Já era noite cerrada quando chegámos à zona e acabámos por estacionar num parque tranquilo no meio da floresta, onde passámos a noite. No dia seguinte, despertámos com o entusiasmo de quem sabe que está prestes a enfrentar uma das caminhadas mais emblemáticas da Noruega… e exigentes da nossa viagem.
A Pedra do Púlpito é uma imensa falésia de granito que se ergue verticalmente a 604 metros acima do fiorde de Lysefjord. No topo, tem uma plataforma quase plana com cerca de 25 metros quadrados, sem qualquer tipo de barreira ou proteção, apenas a rocha e o abismo à frente. Apesar das várias fendas visíveis, a plataforma é estável e é regularmente monitorizada.
A visita à Preikestolen é gratuita, mas é necessário pagar o estacionamento nos parques oficiais situados junto ao inicio do percurso. Nós ficámos no P1, o parque mais próximo da entrada e como começámos cedo, estava quase vazio quando chegámos. Pagámos cerca de 25 €. Existe também o P2, localizado um pouco mais abaixo, a cerca de 1,5 km do início do percurso o que obriga a caminhar mais um pouco até ao começo do trilho. É também importante saber que é proibido pernoitar ou acampar nestes parques.
No local existe uma loja onde se pode alugar material para a caminhada, como roupa impermeável ou bastões, além de uma pequena loja de conveniência e um bar para quem quiser comer qualquer coisa antes ou depois da aventura.
Começámos o trilho por volta das 7:30 da manhã, com a intenção de evitar as multidões… e resultou. Quando chegámos ao topo, estávamos praticamente sozinhos, o que tornou a experiência ainda mais mágica. Levávamos umas sandes nas mochilas e acabámos por comê-las ali mesmo, sentados à beira do precipício, com a paisagem a estender-se até perder de vista.
Caminho até à Preikestolen
Nas pesquisas que fiz, o trilho era descrito como relativamente fácil, com cerca de 4 km de extensão até ao topo e 350 metros de desnível. Mas, pela nossa experiência, não foi bem assim. O percurso é longo, com terreno irregular, bastantes pedras, degraus acentuados e zonas onde é preciso redobrar a atenção. Quando finalmente chegámos ao topo, estávamos cansados… e ainda tínhamos de fazer tudo ao contrário. Durante a caminhada, vimos crianças e pessoas idosas a passar por nós como se nada fosse. Shame on us!
Ainda assim, o esforço foi amplamente recompensado. Ao chegar ao topo, compreendemos de imediato por que é uma das atrações mais populares da Noruega. A vista é arrebatadora. Ainda levantámos o drone para registar a paisagem.
Depois de cerca de 1h30 no topo, iniciámos a descida… e, sinceramente, ainda hoje não sabemos se custou mais a subida ou a descida. Às 11h30 da manhã estávamos de volta à nossa Maria Rita. No total, entre a ida, o tempo lá em cima e o regresso, demorámos cerca de 5 horas.
Heddal Stavkirke
Depois de visitar a Preikestolen, fizemo-nos novamente à estrada para irmos até ao nosso próximo destino. Ao longo do caminho, fomos sendo embalados pelas paisagens, lagos, florestas e pequenas aldeias que pareciam paradas no tempo. A Noruega continuava a surpreender-nos a cada curva. Já de noite e cerca de 300 kms depois, chegámos à zona de Heddal e estacionámos a Maria Rita mesmo ao lado da stavkirke. O plano era claro: descansar o suficiente para acordar bem cedo e fotografar ali o nascer do sol!
As stavkirke são verdadeiros tesouros da arquitetura medieval norueguesa. Construídas entre os séculos XI e XIII, eram igrejas cristãs de madeira muito comuns no noroeste da Europa. Pesquisas recentes acreditam que na Noruega terão existido cerca de 2000 stavkirke, mas apenas 28 resistem até hoje. Estas igrejas de madeira são das construções cristãs mais antigas do mundo. Apesar de terem existido noutros países europeus, só as norueguesas é que sobreviveram, o que as torna ainda mais especiais.
A igreja de Heddal é a maior stavkirke da Noruega e estar ali era como pisar solo sagrado, onde a história e a natureza se entrelaçam. Acordámos ainda com o céu escuro, montámos o tripé e esperámos que os primeiros raios de sol começassem a pintar o cenário. E foi ali que vivemos um dos momentos mais mágicos de toda a viagem… um nascer do sol a tingir o céu de tons de rosa, roxo e amarelo, banhando a igreja com uma luz suave e quase irreal. O silêncio à nossa volta tornava tudo ainda mais intenso, como se o tempo tivesse parado só para nós. Foi, sem dúvida, o nascer do sol mais bonito de toda a viagem. Um cenário tão perfeito que parecia saído de um conto.
E falando em contos, reza a lenda que a igreja de Heddal foi construída num só dia por um troll chamado Finn Fagerlokk. Um homem teria pedido ajuda para erguer a igreja e o troll aceitou com uma condição: o homem teria de adivinhar o nome do construtor antes da obra estar concluída sob pena de perder a vida. Já em desespero e com o prazo quase a terminar, o homem ouviu por acaso a mulher do troll a cantar uma canção de embalar para o filho, revelando sem querer o nome de Finn. Assim se salvou… e a igreja ficou de pé. Como muitas lendas norueguesas, mistura o real com o mágico, dando ainda mais mistério a um lugar que, mesmo sem história nenhuma, já parece encantado.
Sabias que?
Estas igrejas medievais foram construídas com técnicas de encaixe de madeira, como se fossem puzzles gigantes. As estruturas são mantidas unidas apenas por encaixes e cavilhas de madeira, o que permitiu que resistissem durante séculos ao tempo e ao clima rigoroso da Noruega.
Estas técnicas não só resistiram ao tempo, como também evitavam a corrosão que o ferro traria, ajudando a preservar estas construções durante mais de 800 anos. Uma herança única que só a Noruega conseguiu manter intacta.
Oslo
Ainda nos despedimos de Heddal com um último olhar para aquele cenário digno de um postal. Tomámos o pequeno-almoço na Maria Rita, ali mesmo junto à igreja, ainda embalados pelo nascer do sol mágico da manhã. E pouco depois já estávamos de novo na estrada. Faltavam pouco mais de 130 km até Oslo — e a nossa viagem estava prestes a fechar o círculo.
Chegámos à capital norueguesa ainda durante a manhã, com tempo suficiente para começar logo a explorar. Depois de tantos dias entre montanhas, fiordes, cascatas e natureza selvagem, era hora de descobrir o lado urbano da Noruega. Oslo é uma cidade moderna, mas com alma — cheia de museus, espaços verdes e recantos surpreendentes. [Veja aqui tudo o que visitámos em Oslo → Post sobre Oslo].
O adeus à Noruega
A Noruega não é um destino qualquer, é um país que se sente, que se vê de olhos bem abertos, se respira com calma e se escuta em silêncio. Desde o início, sabíamos que queríamos percorrê-la de ponta a ponta. Por isso, optámos por subir rápido até ao norte [ descubra como foi essa aventura ] e descer com calma, com desvios, paragens e contemplação [ como fizemos nas ilhas Lofoten ].
Em setembro, num percurso de 5996 km feitos em 2 semanas, vivemos quase todas as estações do ano. Houve neve, nevoeiro, céu limpo, chuva e até temperaturas negativas. A cada curva, a Noruega mostrava uma nova paisagem. Glaciares azuis, fiordes profundos, estradas suspensas sobre o mar, cascatas ensurdecedoras, trolls escondidos nas florestas e renas a pastar no meio da estrada e até a magia das auroras boreais.
Fizemos 11 travessias de ferry, dormimos junto a lagos e montanhas e cruzámos túneis que pareciam não ter fim, incluindo o túnel rodoviário mais longo do mundo. Visitámos museus sobre jangadas que cruzaram oceanos, cultura indígena, petróleo, história viking e arquitetura. Comemos salmão fumado, rena estufada, baleia grelhada, waffles, natas, lefse com açúcar e canela.
Conhecemos as hyttas e as turf houses, aprendemos o que é o friluftsliv e sentimo-nos, por momentos, parte de um estilo de vida simples e ligado à natureza. [ Mais curiosidades e detalhes da vida norueguesa neste post ].
Ao contrário do que imaginávamos, os noruegueses revelaram-se simpáticos, discretos, mas prestáveis e sempre prontos a ajudar. Todos (ou quase todos) falam inglês. Cada dia trazia uma surpresa e cada lugar parecia ter sido desenhado para nos fazer parar e olhar. E nós parámos. Muitas vezes.
Saímos da Noruega de coração cheio. A beleza natural é arrebatadora, mas foi a experiência de a viver ao nosso ritmo, e tempo, que tornou esta viagem inesquecível. Porque nem tudo o que é contado, anotado ou fotografado consegue traduzir o que vivemos. Há experiências que não cabem nos números. E esta viagem foi uma delas
