A nossa chegada
Depois da nossa travessia de ferry desde Bodø até Moskenes (como contamos no Post do Norte da Noruega), entrámos num dos capítulos mais memoráveis da viagem: as Ilhas Lofoten.
As Lofoten são um dos mais extraordinários arquipélagos da Noruega. Situado bem acima do Círculo Polar Ártico, este conjunto de ilhas é formado por quatro principais (Austvågøya, Vestvågøya, Flakstadøya e Moskenesøya), todas ligadas entre si por pontes ou túneis, o que transforma qualquer viagem de carro por lá numa verdadeira aventura paisagística.
Com montanhas que se erguem abruptamente do mar, vilas de pescadores coloridas e fiordes profundos, o cenário parece saído de um filme. Mas as Lofoten não vivem só de paisagens, são também o coração da pesca do bacalhau da Noruega. Durante o inverno, os mares enchem-se de barcos que seguem a tradição da pesca do Skrei (o bacalhau do Ártico) e ao longo das estradas multiplicam-se as cremalheiras de secagem, uma imagem icónica da região. Muito desse bacalhau seco chega até Portugal há já séculos.
A cada curva da estrada cénica EN10 (a única estrada principal que atravessa as Lofoten de ponta a ponta e atravessa as quatro ilhas), as vistas surpreendem. Há uma sensação constante de que se está a descobrir um lugar onde a natureza dita o ritmo e o silêncio tem outro som. Visitar as Lofoten é entrar num mundo à parte onde tudo parece mais puro.
Existem três travessias principais de ferry entre o continente e o arquipélago: Bodø–Moskenes, Skutvik–Svolvær e Bognes–Lødingen. Como o nosso plano era fazer as Lofoten de uma ponta à outra e continuar caminho para o norte, a travessia mais lógica foi mesmo Bodø–Moskenes. Comprámos os bilhetes online pela Torghatten Nord e fizemos a viagem à noite que demorou cerca de 3 horas.
Chegámos às Lofoten por volta das 3:30 da manhã, conduzimos cerca de 10 minutos até Reine, onde estacionámos a Maria Rita junto à água e dormimos cerca de duas horas para fotografar o nascer do sol em Reine, um vilarejo de pescadores com casas vermelhas encostadas ao fiorde e uma água tão transparente que parecia irreal.
Hamnøy
Logo depois, continuámos até Hamnøy, uma das mais belas aldeias de pescadores das Lofoten e, provavelmente, a mais fotografada de todas que chegou mesmo a ser capa do guia da Lonely Planet da Noruega em 2018. As casas vermelhas de madeira construídas sobre palafitas junto ao mar — os tradicionais rorbuer — são uma imagem de postal. Estas cabanas eram originalmente usadas por pescadores durante a temporada do bacalhau e foram pintadas de vermelho por ser a tinta mais barata de produzir (mistura de óleo de fígado de bacalhau com óxido de ferro). Hoje, muitas delas foram recuperadas e transformadas em alojamentos com vistas de sonho.
Ramberg
Depois de algumas fotos em Hamnøy, seguimos viagem para norte e decidimos parar na praia de Ramberg. Água cristalina, areia branca fininha, montanhas a cair sobre o mar, parecia uma praia tropical… até experimentarmos a temperatura da água. Decidimos meter os pés e… eu nem 10 segundos consegui aguentar. A água era tão gelada que comecei logo a sentir dores nos dedos dos pés. O Tiago, não sei como, conseguiu ficar lá dentro uns bons minutos. Se não fosse a temperatura, teria sido uma praia perfeita para um mergulho. Foi, sem dúvida, um dos cenários mais improváveis e bonitos da viagem.
Nusfjord
Seguimos depois para Nusfjord, uma vila com uma atmosfera completamente diferente. Situada na ilha de Flakstadøya, Nusfjord é uma das vilas mais antigas e bem preservadas da Noruega. Rodeada de montanhas escarpadas e encaixada num fiorde estreito, parece que parou no tempo, como se ainda estivéssemos no século XIX.
Muitas das casas são também rorbuer, mas aqui a vila foi transformada num museu vivo a céu aberto, com entrada paga. Pode-se visitar, por exemplo, a antiga fábrica de fígado de bacalhau, a oficina do ferreiro, o armazém do peixe e até um forno tradicional.
No nosso caso, devido à pandemia, não se cobrava entrada, mas muitos dos espaços estavam encerrados. Ainda assim, valeu a pena percorrer a vila com calma e apreciar os detalhes deste pequeno tesouro à beira-mar.
Interior da casa do pescador
Sabias que?
Nusfjord foi uma das primeiras vilas a ser protegida como património cultural na Noruega. Nos anos 70, foi escolhida como modelo de vila tradicional norueguesa para um projeto de preservação do modo de vida antigo e por isso foi restaurada com atenção quase obsessiva ao detalhe.
Henningsvær
Já mais a norte, fomos até Henningsvær, espalhada por várias pequenas ilhas ligadas entre si por pontes. A vila em si é charmosa, mas o que nos levou lá foi o campo de futebol: o Henningsvær Stadium.
Difícil chamar-lhe “estádio”. Situado numa pequena ilha rochosa, rodeado de mar e sem uma única bancada, é considerado um dos campos de futebol mais bonitos do mundo e não é usado apenas para jogos locias, já serviu de cenário para vídeos promocionais da UEFA e da FIFA. Do chão, parece apenas um campo normal de futebol. Mas com o drone percebemos o porquê da fama, do ar o cenário é absolutamente incrível, com o campo encaixado entre mar aberto, montanhas e os estendais para secar o bacalhau por todo o lado. Graças ao cenário surreal, é mais fotografado do que jogado!
Chegámos já de noite e, como queríamos fotografar o estádio com o drone com a luz do dia, decidimos passar a noite ali mesmo, junto ao campo. Foi uma noite tranquila, com vista para o mar e aquele silêncio bom que só se encontra em lugares assim.
Despedida das Lofoten
Estivemos apenas dois dias nas Lofoten, mas foram intensos. As ilhas deixaram-nos completamente rendidos. Depois de explorar vilas, atravessar pontes suspensas sobre fiordes, meter os pés em águas gélidas e contemplar paisagens que mais pareciam pinturas, voltámos à estrada — sempre pela E10 — e seguimos rumo ao norte, com o coração cheio e a Maria Rita a rolar devagar, como quem não quer ir embora.
Atravessar as Lofoten foi como viver dentro de um postal em movimento, onde cada curva parecia pintada à mão. Sem dúvida, uma das zonas mais bonitas de toda a viagem.
Mas a nossa aventura pela Noruega ainda estava longe de terminar… Leia o nosso post que conta a nossa viagem pelo Norte da Noruega para conhecer todo o nosso percurso.
