Voltámos à Kitte Beach
Depois da nossa excursão pela Ilha do Sal, havia uma coisa que sabíamos que queríamos mesmo fazer: assistir à desova das tartarugas marinhas. Durante a visita à Kitte Beach, o nosso guia tinha-nos mostrado onde tudo acontecia e o melhor de tudo… a praia ficava a poucos minutos de carro do nosso hotel. Assim, decidimos aventurar-nos por conta própria.
Alugámos um carro diretamente no hotel, sem grandes complicações. À hora marcada, lá estava à nossa espera o nosso novo companheiro de aventuras: um Suzuki Jimmy, que rapidamente apelidámos de “Jimmy”. Pequeno, valente e perfeito para explorar a ilha ao nosso ritmo. No dia seguinte devolveríamos o carro no mesmo local, com a missão cumprida.
A primeira paragem foi precisamente a Kitte Beach, ainda durante o dia, para fazer um reconhecimento do terreno. E foi uma boa decisão porque o dia brindou-nos com uma bela surpresa, o nascimento de algumas tartarugas! Assim que chegámos, vimos dois biólogos junto a uma das zonas cercadas do “santuário”, a recolher dados dos ninhos. Apesar de estarem concentrados no seu trabalho, foram super simpáticos e explicaram-nos o que estavam a fazer, anotavam datas, verificavam condições dos ninhos e preparavam tudo para os próximos nascimentos.
Tivemos a sorte de os acompanhar enquanto, com muito cuidado, levavam um balde com tartarugas recém-nascidas até ao mar para as libertar. E foi aí que vivemos um daqueles momentos que se guardam para sempre. Ver as pequenas tartaruguinhas, tão frágeis e decididas, a caminharem em direção ao oceano.
Foi qualquer coisa de mágico. Um misto de beleza, ternura e um desejo irracional de as proteger todas com uma concha gigante. Estavam ali, diante de nós, a começar uma viagem que poucas conseguirão completar, afinal, menos de 1 em cada 1000 chega à idade adulta.
Ficámos por ali algum tempo, fizemos perguntas, ouvimos com atenção e prometemos voltar nessa mesma noite. A aventura ainda mal tinha começado.
Tartarugas a serem lançadas ao mar
Assistir à desova
E assim foi. Já noite cerrada, regressámos à Kitte Beach com o nosso Jimmy, prontos para mais uma tentativa. A praia estava escura, serena e silenciosa, tal como devia estar. Nada de barulhos, nada de luzes, apenas o silêncio da noite.
Sabias que?
Cabo Verde é o terceiro maior local de desova de tartarugas marinhas do mundo.
Todos os anos, entre junho e outubro, milhares de tartarugas marinhas, principalmente da espécie Caretta caretta (tartaruga comum), escolhem as praias de Cabo Verde para pôr os seus ovos. A maioria destas desovas acontece na ilha do Sal, especialmente em praias como a Kitte Beach, onde vimos de perto este fenómeno mágico.
Enquanto caminhávamos pela areia, reparámos ao longe numa ténue luz vermelha. Essa é a única iluminação permitida, justamente por não interferir com os instintos das tartarugas. Seguimos naquela direção, curiosos… e para nossa surpresa, era o mesmo biólogo com quem tínhamos estado de manhã. Estava ali a fazer monitorização e também à espera, como nós, que alguma tartaruga surgisse das ondas.
Perguntámos se podíamos ficar a acompanhá-lo e ele respondeu logo com um sorriso: claro que sim. E assim nos tornámos parte daquela vigília noturna, atentos a cada som, cada movimento na areia e a ouvir histórias de quem faz da proteção das tartarugas a sua vida.
A espera foi longa e admito, houve um momento em que quase desistimos. Mas foi então que o biólogo, com olhos treinados, parou e apontou: “Ali… um rasto!”. Uma linha na areia, ainda discreta, a denunciar que algo tinha saído do mar.
Seria a nossa noite de sorte? Seria mesmo! A tartaruga tinha acabado de chegar e começava, lentamente, a sua marcha em direção a terra firme. Seguimos o biólogo, mantendo a distância e fazendo exatamente o que ele nos dizia para não interferirmos no processo. E ali estava ela, num movimento calmo e decidido, à procura do lugar ideal para cumprir o seu papel ancestral: dar início a uma nova geração.
Com as patas traseiras, a tartaruga começou a escavar um buraco com cerca de 40 a 50 centímetros de profundidade. Tudo com uma calma quase hipnótica. Quando o ninho estava pronto, iniciou a deposição dos ovos — dezenas deles, num processo instintivo e meticuloso. Ao lado, o biólogo registava tudo: tirou medidas do casco, anotou coordenadas e recolheu até uma pequena amostra de pele para análise, sempre com um cuidado visível por não a perturbar. E nós ali, imóveis na areia, quase a suster a respiração, a assistir a tudo sob a ténue luz vermelha. Cerca de uma hora depois, ela começou a cobrir o ninho com areia, usando novamente as patas traseiras e por fim o corpo todo, como quem camufla um tesouro. Depois, virou-se lentamente e regressou ao mar, deixando para trás a promessa de vida. Se tudo correr bem, dentro de 45 a 65 dias, as pequenas tartarugas romperão as cascas, emergirão e seguirão, instintivamente, em direção ao oceano numa corrida contra o tempo e contra os predadores. Uma em mil chegará à idade adulta. É um milagre da natureza… e estar ali a presenciar esse ciclo foi, sem dúvida, um dos momentos mais emocionantes e marcantes da viagem.
Tartaruga a desovar
Saímos da praia em silêncio, com os pés cheios de areia e o coração cheio de tudo. Foi uma experiência mágica, íntima e difícil de descrever — daquelas que não se fotografam, só se sentem. Ver uma tartaruga cumprir o seu papel no ciclo da vida, com aquela serenidade, naquele cenário tão simples e tão poderoso, fez-nos sentir pequeninos… mas incrivelmente privilegiados. A noite em que assistimos à desova ficará para sempre gravada nas nossas memórias. Cabo Verde já estava a ganhar um lugar especial nas nossas viagens, mas depois desta noite, passou a ocupar um cantinho ainda mais especial no coração.
