Descobrir a Ilha do Sal – O Que Ver Numa Excursão Pela Ilha

Pescadores em Palmeira
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Índice

Introdução

Depois de termos conhecido o Dany Lopes logo no primeiro dia da nossa estadia e combinado com ele todos os pormenores da excursão, chegou finalmente o momento de partir à descoberta da Ilha do Sal. À hora marcada, lá estava ele à nossa espera com três jipes — sinal de que não seríamos os únicos a embarcar nesta aventura. Havia mais curiosos que também tinham reservado a experiência.

Nós, como éramos cinco, subimos logo para a parte de trás do jipe, aquela zona aberta que para nós é sempre a mais divertida. Iamos ao ar livre, com o vento na cara e a sensação de liberdade total, exatamente o espírito certo para começar a explorar a ilha de uma ponta à outra.

A Ilha do Sal é pequenina e esta excursão é mais do que suficiente para conhecer os principais pontos de interesse, de norte a sul. Em poucas horas conseguimos ver praticamente tudo o que há para ver… e com a vantagem de ter um guia que conhece bem o território, partilha histórias locais e ainda arranca umas gargalhadas.

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O que visitar

Kitte Beach

Perto de Santa Maria fica a Kite Beach, um verdadeiro paraíso para os amantes de kitesurf, graças aos ventos constantes que sopram nesta zona da ilha. Mas não foi esse o motivo que nos levou até lá.

Durante os meses de verão entre junho e outubro, esta praia transforma-se num santuário natural. É uma das principais zonas de desova da tartaruga comum (Caretta caretta) em Cabo Verde. Aqui, várias organizações locais e internacionais como a Project Biodiversity, desenvolvem um trabalho fundamental na proteção, monitorização e sensibilização ambiental.

Durante a noite, as equipas patrulham a praia para proteger as tartarugas adultas de predadores e de ameaças humanas, registam os ninhos e quando necessário transferem-nos para zonas mais seguras, delimitadas por cercas protetoras. Muitos desses ninhos são colocados em campos de conservação com placas informativas onde se pode ver o número de ovos e a data prevista para o nascimento das crias. Este trabalho é essencial porque apesar de cada tartaruga pôr entre 80 a 100 ovos por desova, estima-se que menos de 1 em cada 1000 chegue à idade adulta.

Na nossa passagem por aqui com o Dany, infelizmente não tivemos a sorte de assistir a nenhum nascimento e muito menos a uma desova uma vez que era de dia mas ficou a vontade de regressar outro dia com mais tempo para viver esse momento tão especial. E foi isso mesmo que decidimos fazer. Alugámos um carro e fomos tentar a sorte. E que sorte pois no mesmo dia vimos tartaruguinhas a nascer e uma tartaruga mãe a desovar as suas crias. Pode ler a nossa aventura aqui.

Santuário de tartarugas na Kitte Beach
Santuário de tartarugas na Kitte Beach
Murdeira

A baía da Murdeira é uma enseada tranquila em forma de ferradura, localizada a meio caminho entre Santa Maria e Espargos. Aqui não há o rebuliço do turismo nem grandes infraestruturas, apenas um resort, algumas casas e uma praia calma banhada por águas serenas.

Passámos por lá durante a excursão e apesar de o local não nos ter impressionado particularmente, valeu pela paisagem diferente e pela paz que se sente. É daqueles lugares que se visita mais por curiosidade, para ver com os próprios olhos, do que propriamente por haver algo imperdível. Ainda assim, é fácil perceber por que razão alguns escolhem esta zona para viver longe da agitação turística.

Praia da Murdeira
Praia da Murdeira
Salinas de Pedra de Lume

As Salinas de Pedra de Lume são, sem dúvida, um dos locais mais impressionantes e únicos da Ilha do Sal. Situadas no interior da cratera de um antigo vulcão extinto, oferecem uma paisagem surreal e uma experiência que dificilmente se esquece.

Com uma história que remonta ao século XIX, este foi durante muitos anos um dos principais centros de extração de sal de Cabo Verde. O sal aqui produzido era exportado para vários destinos e representava uma importante fonte de rendimento para a ilha. Hoje, a atividade industrial já não existe como outrora mas o local mantém viva a tradição, agora com um foco mais turístico e de preservação.

Entrar na cratera é como viajar no tempo e sentir de perto a força da geologia e da herança cabo-verdiana. No seu interior encontram-se várias lagoas salgadas, alimentadas por águas subterrâneas provenientes do mar e é aqui que começa a magia. Graças à elevada concentração de sal, é possível flutuar sem esforço. A água é morna, rica em minerais e o cenário em redor é quase de outro planeta.

A única recomendação séria? Evitar molhar os olhos. A água é mesmo muito salgada. No final há chuveiros disponíveis para passar o corpo por água doce e remover o sal acumulado na pele.

Salinas de Pedra de Lume
Salinas de Pedra de Lume
Palmeira

Palmeira é uma pequena vila piscatória que alberga o principal porto comercial da Ilha do Sal. É por aqui que entra praticamente tudo o que abastece a ilha, desde alimentos, materiais de construção a combustível, tudo passa por aqui.

Apesar da sua importância logística, Palmeira mantém um ambiente simples e tranquilo. Não há multidões nem grandes resorts. Em vez disso, encontramos ruas calmas, barcos de pesca coloridos e um quotidiano que ainda gira ao ritmo do mar.

É um dos locais ideais para espreitar o lado mais genuíno da ilha, longe do turismo de massas, onde a vida continua com a mesma cadência de sempre.

Pescadores em Palmeira
Pescadores em Palmeira
Buracona

A Buracona é mais um dos locais emblemáticos da Ilha do Sal, conhecida sobretudo pelo famoso “Olho Azul”, provavelmente a atração mais fotografada de Cabo Verde.

Num cenário de geologia dramática, mar agitado e um toque de magia natural, este local é uma formação vulcânica onde o oceano escavou grutas e cavidades ao longo dos séculos. Uma dessas cavidades submersas, quando iluminada pelo sol num ângulo específico, normalmente entre as 11h e as 13h, cria um brilho azul intenso em forma de olho. É esse fenómeno que dá nome ao “Olho Azul”.

Mas connosco, a sorte não alinhou. Além do céu nublado, o mar tinha estado revoltado nos dias anteriores, deixando a água turva e sem o efeito cristalino que dá vida ao Olho Azul. Ainda assim, o lugar impressiona. À volta existem piscinas naturais escavadas nas rochas vulcânicas onde em dias de mar mais calmo é possível mergulhar e nadar. Nós conseguimos dar um mergulho numa das grutas naturais, uma experiência refrescante que compensou o azar com o famoso olho.

Buracona
Buracona
Miragem da Terra Boa

No norte da ilha fica a Terra Boa, uma zona árida e plana onde o cenário se estende em tons castanhos até perder de vista. É um ambiente desértico, quase sem vegetação, onde o calor intenso costuma criar um fenómeno curioso, uma miragem que parece um lago ou uma faixa de água no horizonte.

Desta vez tivemos sorte e conseguimos ver o efeito da miragem. Mas sejamos sinceros, apesar de ser curioso, não foi algo que nos tenha deixado de boca aberta. É daquelas paragens que se fazem, regista-se a foto, comenta-se um “olha, afinal vê-se mesmo!”… e segue-se viagem. Mais um daqueles “é giro, pronto”, mas não mais do que isso.

Miragem da Terra Boa
Miragem da Terra Boa
Terra Boa (Povoação)

Perto da zona da miragem, fica a povoação de Terra Boa, conhecida como uma das zonas mais carenciadas da ilha do Sal. A falta de condições é visível e sente-se no ambiente à nossa volta.

Já íamos preparados, pois sabíamos de antemão da realidade local e levámos connosco desde Portugal algum material escolar (lápis, canetas, borrachas, etc) para oferecer às crianças. Quando os jipes se aproximaram da aldeia, bastou ouvir a buzina para vermos crianças e adultos a sair das casas e a correr para a rua acenando com entusiasmo. Num instante, estávamos rodeados de miúdos à espera de receberem algo com os olhos brilhantes de esperança.

Senti um nó no estômago. Um só lápis fazia nascer um sorriso. Uma simples garrafa de água era recebida como se fosse um tesouro. Foram apenas alguns minutos ali, mas marcaram-nos profundamente. Desses momentos que nos ficam gravados, não só pela dureza, mas pela forma como mostram a alegria que pode caber num gesto tão simples.

Crianças na Terra Boa

Espargos

Espargos é a capital da ilha do Sal. Foi lá que fizemos a pausa para o almoço, num restaurante da cidade e aproveitámos para dar uma volta rápida pelas ruas. Ao contrário de Santa Maria, que respira turismo por todos os lados, Espargos é uma cidade mais autêntica, voltada para o quotidiano dos próprios cabo-verdianos. Não tem o charme das zonas costeiras, mas mostra um lado mais real e funcional da ilha.

Crianças em Espargos
Crianças em Espargos
Miradouro do Monte Curral

A ilha do Sal é praticamente plana, por isso o Monte Curral, em Espargos, destaca-se como um dos poucos miradouros da ilha. Lá no topo, onde só se encontram algumas antenas de telecomunicações e instalações militares, temos uma vista ampla e privilegiada. Dali conseguimos ver a cidade de Espargos, o aeroporto, a vastidão árida do interior da ilha e ao longe, até o mar. Não há grandes atrativos no local, mas a paisagem ajuda a perceber melhor a geografia da ilha e a sua dimensão.

Miradouro do Monte Curral
Miradouro do Monte Curral
Praia da Ponta Preta

Para terminar o dia, fomos até à Praia da Ponta Preta. Esta zona costeira distingue-se pelas suas dunas. Não são gigantes mas são suficientemente altas para darem à paisagem um ar mais selvagem e fotogénico… e para nos termos divertido a rebolar por elas abaixo. O contraste entre o azul do mar e o dourado da areia moldada pelo vento cria um cenário bonito e tranquilo, perfeito para terminar o dia em beleza.

Praia da Ponta Preta
Praia da Ponta Preta
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Conclusão

A excursão com o Dany Lopes foi uma excelente forma de conhecer os pontos mais emblemáticos da Ilha do Sal num só dia. Apesar de a ilha ser pequena, tem recantos e contrastes que nos ficam na memória. No nosso caso, permitiu-nos não só explorar paisagens únicas e conhecer melhor a cultura cabo-verdiana, como também refletir sobre algumas realidades menos visíveis de quem vive fora dos grandes resorts. Uma experiência completa, intensa e que recomendamos a quem visitar a ilha.

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