Desconstruindo o Muro de Berlim

East Side Gallery
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Índice

Pilar Berliner Mauer

O inicio

Berlim é uma cidade onde a história ganha vida a cada esquina. Entre as suas muitas cicatrizes do passado, o Muro de Berlim permanece como um símbolo poderoso de divisão, sofrimento e, finalmente, de liberdade.

Durante a nossa visita, mergulhámos na história deste monumento sombrio, percorrendo as ruas que testemunharam a separação de famílias, a luta por liberdade e a queda de uma barreira que dividiu o mundo durante quase três décadas. A nossa jornada pela cidade começou com uma simples pergunta: o que foi realmente o Muro de Berlim, e que impacto teve na vida dos berlinenses? Aqui está o que descobrimos.

Como o nosso hotel ficava na Invalidenstrasse, junto a um antigo ponto fronteiriço, começámos por ali a seguir os rastos do muro. Esses pontos fronteiriços eram os únicos locais por onde as pessoas podiam passar de um lado para o outro, sendo rigorosamente controlados.

Invalidenstrasse
Invalidenstrasse
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A Invalidenstrasse

Meses antes da construção do muro, existiam 81 passagens abertas entre o leste e o oeste de Berlim. Com a construção do muro, 67 dessas passagens foram fechadas. As poucas que ficaram abertas eram, na sua maioria, vedadas aos residentes de Berlim Leste.

O ponto fronteiriço na Invalidenstrasse era uma das quatro passagens permitidas aos cidadãos de Berlim Ocidental. Havia ainda um ponto específico para diplomatas e estrangeiros, e outros dois para cidadãos da República Federal da Alemanha (RFA).

Seguimos então as placas que indicam a direção do muro, permitindo-nos traçar o percurso que ele seguia.

Mapa da marcação do muro
Mapa da marcação do muro
Placas indicativas do muro
Placas indicativas do muro
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Invalidenfriedhof

Chegámos ao Invalidenfriedhof (Cemitério dos Inválidos), um dos mais antigos de Berlim, onde vimos uma parte do muro, ainda pintada de branco. Um pouco mais à frente, encontrámos uma torre de vigia, a Gedenkstätte Gunter Litfin (memorial). 

Sabias que?

Gunter Litfin foi um alfaiate de 24 anos que tentou atravessar a nado o rio Spree para alcançar Berlim Ocidental, mas foi descoberto pelos guardas da RDA (República Democrática Alemã). Ignorando as ordens para parar, foi alvejado e afogou-se. Foi o primeiro fugitivo a ser morto pela polícia de fronteiras no muro de Berlim.

Muro de Berlim no Invalidenfriedhof e Torre de vigia – Gedenkstätte Gunter Litfin

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Liesenstrasse

Prosseguimos até à Liesenstrasse, onde se encontra outra secção do muro, em mau estado de conservação, e continuámos até à Bernauer Strasse.

Muro de Berlim na Liesenstrasse
Muro de Berlim na Liesenstrasse
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Berlin Wall Memorial

Na Bernauer Strasse, encontrámos um museu ao ar livre e um centro de visitantes, onde pudemos aprender sobre toda a história do muro e dessa rua que separou famílias durante anos. Mas vamos por partes:

 

O porquê da construção do muro:

Em 1945, após a derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial, as quatro potências vencedoras (Estados Unidos, Reino Unido, França e União Soviética) dividiram o país em quatro zonas de ocupação. Os territórios a leste ficaram sob controlo soviético, incluindo Berlim, que, apesar de estar situada na zona de ocupação soviética, foi também dividida em quatro sectores. As diferenças ideológicas entre os Estados Unidos, que defendiam o capitalismo, e a União Soviética, que promovia o socialismo, resultaram em tensões crescentes entre os antigos aliados, iniciando assim a Guerra Fria.

Em 1948, numa tentativa de estabilizar a economia nas zonas ocidentais, os Estados Unidos, o Reino Unido e a França uniram as suas zonas numa “trizona”, movimento que desagradou a Josef Stalin, líder da URSS. Em resposta, Stalin ordenou o bloqueio de todas as rotas terrestres para Berlim Ocidental, privando a cidade de alimentos e combustíveis. Esta ação levou à criação de uma ponte aérea, através da qual os mantimentos eram fornecidos por aviões.

Stalin acabou por levantar o bloqueio, mas as dificuldades económicas no lado oriental levaram a um êxodo maciço de pessoas para o Ocidente. Para conter este fluxo de refugiados, a RDA começou, na madrugada de 13 de agosto de 1961, a erguer uma barreira de arame farpado, que rapidamente evoluiu para uma estrutura fortificada de 155 km que isolou completamente os sectores ocidentais de Berlim.

Berlin Wall Memorial
Berlin Wall Memorial
Como era o muro:

O muro consistia numa série de barreiras, incluindo uma parede de betão de cerca de 4 metros de altura rematada com um tubo também em betão no topo para impedir que os fugitivos se agarrassem, torres de vigia, iluminação intensa, barreiras electrificadas, zonas de segurança patrulhadas por cães de guarda e o chamado “corredor da morte”, uma área entre duas paredes onde qualquer tentativa de fuga era facilmente detectada e punida.

Planta do muro
Planta do muro

Em algumas ruas, a divisão fazia-se com prédios, conhecidos como casas fronteiriças, cujas entradas e janelas voltadas para o oeste foram bloqueadas pela RDA para impedir fugas. Um exemplo é a Bernauer Strasse, onde cerca de 2.000 pessoas foram forçadas a abandonar as suas casas.

Grafitis de casas da Bernauer Strasse
Grafitis de casas da Bernauer Strasse
Algumas das consequências do muro

Na Bernauer Strasse, uma igreja, a Igreja da Reconciliação, ficou isolada na zona interditada e acabou por ser demolida pela RDA. No local, foi construída uma nova igreja, que pode ser visitada, com as marcas das paredes da antiga igreja ainda visíveis no chão.

O Muro de Berlim separou de um dia para o outro famílias, amigos e casais. Na Bernauer Strasse, fotos mostram cenas de um casal de noivos em Berlim Ocidental a cumprimentar os seus parentes que estavam nos primeiros andares das casas fronteiriças.

Marcação do Muro de Berlim e Igreja da Reconciliação
Marcação do Muro de Berlim e Igreja da Reconciliação
Marcação da antiga Igreja da Reconciliação
Marcação da antiga Igreja da Reconciliação
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Nordbahnhof

Junto a este “museu” Berlin Wall Memorial, vimos uma das várias estações de metro que se tornaram “estações fantasma”, assim chamadas por terem sido fechadas devido à linha passar por território soviético.

E foi nesta estação, a Nordbahnhof que apanhámos o metro até à estação Warschauer Strasse, a mais próxima da East Side Gallery, uma galeria de arte ao ar livre com 105 murais pintados no lado leste do muro por artistas de todo o mundo.

Estação Nordbahnhof com a marcação onde passava o muro

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East Side Gallery

Aqui, encontrámos um guarda vestido como os antigos guardas da RDA, que, por 4€, nos carimbou uma réplica de um impresso usado na época (também poderia ter carimbado o nosso passaporte), tal como acontecia na fronteira. O impresso levou sete carimbos, os mesmos necessários para que um estrangeiro pudesse permanecer mais do que um dia em Berlim Oriental. Havia carimbos de um só dia, carimbos para aumentar o número de dias de estadia e carimbos específicos para estrangeiros, que eram obrigados a passar pelo Checkpoint Charlie, o ponto fronteiriço no sector americano. O guarda também nos deu uma “nota” de 20 marcos alemães orientais (DDRMark), que era o valor que as pessoas tinham direito a cambiar ao passar para Berlim Ocidental, e ainda recebemos dois postais.

Guarda fronteiriço na East Side Gallery
Guarda fronteiriço na East Side Gallery
Checkpoint Charlie
Checkpoint Charlie
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Checkpoint Charlie

De seguida, dirigimo-nos ao Checkpoint Charlie, o ponto fronteiriço mais famoso, onde existe uma recriação da época com soldados uniformizados e uma cabine de madeira a imitar a antiga que existia naquele local. Este ponto, destinado a estrangeiros e membros das forças aliadas, tornou-se um símbolo da Guerra Fria, representando a separação entre leste e oeste e, para muitos, uma rota para a liberdade.

Perto do Checkpoint Charlie, na Zimmerstrasse, ocorreu uma das mortes mais chocantes da história do muro: Peter Fechter, um jovem pedreiro de 18 anos, tentou fugir com um amigo. Enquanto o amigo conseguia atravessar por cima do último muro, Peter foi baleado com vários tiros tendo caído gravemente ferido no lado leste. Era visto e ouvido a pedir socorro enquanto sangrava, por centenas de berlinenses de ambos os lados. Do lado oeste ninguém o podia socorrer, do lado leste os guardas da fronteira da RDA só o acudiram 50 minutos depois. A terrível morte de Peter que esteve mais de uma hora em completa agonia e acabou por morrer por falta de socorro, mostrou ao mundo inteiro a crueldade deste muro.

Checkpoint Charlie
Checkpoint Charlie

Nesta zona, tal como em outros locais da cidade, o percurso do muro é marcado no chão com paralelos. Seguindo essas marcas desde o Checkpoint Charlie, chegámos à Topographie des Terrors, um museu que documenta os horrores praticados pelos nazis, situado onde se encontrava a sede da Gestapo e outras instituições do regime.

Marcação do Muro de Berlim
Marcação do Muro de Berlim
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Potsdamer Platz

Não podíamos deixar para trás a visita à Potsdamer Platz, um dos locais mais emblemáticos de Berlim, foi em tempos o centro de diversão da cidade, repleta de bares, restaurantes e teatros. Antes da Segunda Guerra Mundial, era um dos cruzamentos mais movimentados da Europa, simbolizando a vida urbana vibrante de Berlim.

Potsdamer Platz
Potsdamer Platz

Durante a guerra, a praça foi devastada pelos bombardeamentos, transformando-se num cenário de ruínas. Com a divisão de Berlim em sectores de ocupação após a guerra, a Potsdamer Platz ficou situada na interseção de três sectores: americano, soviético e britânico. Com a construção do muro em 1961, a praça foi dividida em duas, tornando-se uma “terra de ninguém”. Todos os edifícios que ainda restavam foram demolidos, deixando a área desolada e praticamente abandonada.

Após a queda do muro em 1989, a Potsdamer Platz foi completamente transformada. Nos anos 90, foi alvo de um grande projecto de reabilitação urbana, que resultou na construção de modernos edifícios de escritórios, centros comerciais e complexos de entretenimento. Hoje, a praça é um símbolo da reunificação de Berlim, representando o renascimento da cidade como uma metrópole global.

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DDR-Wachtrum

Nas proximidades da praça, na Ema-Berger-Strasse, encontra-se uma torre de vigia, a DDR-Wachturm, a mais antiga ainda de pé na cidade.

Quando chegámos à torre, vimos um senhor perto dela e fomos perguntar se podíamos entrar. Ele explicou que a torre, uma das primeiras do muro, tinha sido restaurada por um amigo seu, que negociou com a administração da cidade para preservá-la. Por uma contribuição de 3,50€, ele deixou-nos entrar e contou-nos mais sobre a história da torre. Subimos por um espaço apertado até ao topo, onde vimos um espaço amplo com janelas em toda a volta, oferecendo uma vista de 360º. Ali, estavam sempre dois guardas em turnos de 8 horas a monitorizar tanto o lado leste como o lado oeste, prontos para agir contra qualquer tentativa de fuga.

DDR-Wachturm

DDR-Wachtrum

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Conclusão

Ao percorrermos os traços deixados pelo Muro de Berlim, ficou claro que esta não é apenas uma história sobre blocos de betão e arame farpado. É uma história sobre pessoas, sobre a coragem de desafiar o opressor e sobre o preço da liberdade.

O Muro de Berlim, erguido a 13 de agosto de 1961 e derrubado a 9 de novembro de 1989, foi mais do que um ‘Muro da Vergonha’; ele representou a privação do maior direito que todos deveríamos ter: a liberdade.

Berlim, que outrora foi dividida, é hoje uma cidade vibrante e unida, onde o passado é lembrado e o futuro é celebrado. Esta experiência não foi apenas uma lição de história, mas uma profunda reflexão sobre a resiliência humana e a importância de nunca tomarmos a liberdade como garantida. Que esta visita nos inspire a valorizar e lutar pela liberdade, onde quer que a encontremos.

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