Descobrindo o glamour de Havana

Predios em Havana
separador-cuba

Índice

A ilusão inicial 

Cuba sempre foi um destino na nossa lista de viagens mas sempre que pesquisávamos preços acabávamos por achar um pouco caro. A decisão de irmos a Cuba foi repentina. Fomos em lua de mel e embora o destino inicial fosse outro, optámos por Cuba, achando que esta era a altura certa para visitar o país ainda com as cicatrizes dos anos de embargo que o mantiveram isolado do resto do mundo.

Predios em Havana

Contudo, ainda demorará bastante para que Cuba mude. Para que a transformação seja completa será necessário, antes de mais uma mudança na mentalidade dos cubanos. O país vive com muito pouco, em condições bastante precárias. O acesso à internet recente e caro é limitado a uma pequena parte da população e é comum ver lojas com longas filas para que os cubanos possam aceder à rede. As casas estão bastante degradadas, com as obras de restauro restritas aos edifícios do Estado.

Taxi em frente ao Capitólio
Taxi em frente ao Capitólio
separador-cuba

Vestígios da revolução

Apesar disso, muitos cubanos continuam a apoiar a Revolução. Nas ruas, são visíveis inúmeros cartazes de propaganda comunista, com frases como ‘La Revolución es Invencible’ ou ‘Viva Cuba Libre’. Além disso, em quase todos os bairros existem os Comités de Defensa de la Revolución (CDR), uma estrutura criada em 1960 por Fidel Castro para mobilizar a população em defesa da Revolução. Oficialmente, os CDRs têm funções sociais, como campanhas de vacinação e limpeza das ruas, mas há quem diga que a sua principal atividade é a vigilância dos cidadãos, com membros que reportam atividades consideradas contrárias ao regime. Independentemente da sua função, esta organização reforça a presença constante do governo no quotidiano dos cubanos, funcionando tanto como uma rede de apoio comunitário quanto como um instrumento que, para alguns, serve também para manter o controlo social.

La Revolucion es Invencible
La Revolucion es Invencible
Comite de Defensa de la Revolucion
Comite de Defensa de la Revolucion
separador-cuba

O glamour de Havana

Havana, em particular, parece ter parado no tempo. Antes da viagem, imaginava a cidade com um certo charme e glamour, como vemos nos filmes, mas a realidade foi bem diferente. O choque foi tão grande que, no primeiro dia, detestámos Havana e só queríamos que a viagem acabasse rapidamente.

Prédios de Havana

Ao passear pelas ruas, éramos constantemente abordados por locais tentando vender algo, desde visitas guiadas a pé ou de carro até outros serviços. No início, parávamos sempre para os ouvir, mas isso fazia-nos demorar até 15 minutos para percorrer 100 metros. Ao fim de algum tempo, tornava-se cansativo e acabámos por ignorá-los ou recusar imediatamente. Apesar disso, mesmo com a máquina fotográfica sempre ao pescoço, nunca nos sentimos inseguros. Os crimes contra turistas são bastante raros e há uma grande presença policial nas ruas.

Policia de bicicleta
Policia de bicicleta
Carro de policia
Carro de policia

Havana é como um museu ao ar livre, com os seus carros dos anos 50 e as imponentes fachadas coloniais, muitas delas em ruínas. A cidade divide-se em três zonas principais: Habana Vieja, Centro Habana e Prado, e Vedado e Plaza.

Rua em Habana Vieja
Rua em Habana Vieja
separador-cuba

Habana Vieja

Habana Vieja é o núcleo histórico, classificado como Património Cultural da Humanidade em 1982 e é o maior centro colonial da América Latina. Aqui, entre ruelas estreitas e edifícios coloniais, encontram-se alguns dos locais mais icónicos de Havana como o Museu de Arte Colonial que nos chamou a atenção e decidimos visitar. Instalado numa antiga mansão do século XVIII, na entrada tivemos de escolher entre uma visita guiada ou explorar o espaço por conta própria. Optámos pela segunda opção, mas para nosso espanto, uma funcionária acompanhou-nos pelo museu indicando-nos o caminho e dando algumas explicações, mesmo sem termos pedido. No final da visita, juntaram-se a ela mais duas mulheres que com um sorriso ensaiado, pediram-nos uma “ajuda” em dinheiro. Como só tínhamos moedas, demos o que pudemos, mas a reação delas foi de desagrado: “Só isto?”. Esta situação acabou por ser uma experiência pouco agradável e reflete uma realidade muito comum em Cuba. Muitas vezes, a simpatia dos cubanos parece depender da expectativa de uma “propina” (gorjeta) e quando não se dá, o sorriso rapidamente desaparece.

Carla e Tiago no Museu Colonial
Carla e Tiago no Museu Colonial

Museu colonial

Em Habana Vieja, encontra-se também a Catedral de San Cristóbal, o Castillo de la Real Fuerza e a famosa Bodeguita del Medio, um dos bares mais emblemáticos da cidade. Conhecido pelo mojito e pelas assinaturas que cobrem as paredes, este bar tornou-se lendário, especialmente por ter sido frequentado por Ernest Hemingway. Decidimos almoçar lá, mas a comida não nos impressionou. O que realmente valeu a pena foi o ambiente, com música cubana ao vivo a tornar a experiência mais autêntica e animada.

Bodeguita del Medio

Outro bar icónico de Habana Vieja é o Floridita, célebre pelos seus daiquiris e pela ligação a Hemingway, que ali tinha um lugar cativo no balcão. Embora o daiquiri tenha sido inventado numa aldeia perto de Santiago, foi no Floridita que a receita foi aperfeiçoada e ganhou fama internacional.

Bar Floridita
Bar Floridita
separador-cuba

Centro de Havana e Prado

O Centro de Havana e Prado foi, no século XIX, uma área residencial e zona verde. Aqui encontram-se locais emblemáticos como o Capitólio, o Gran Teatro de La Habana, o Museu da Revolução, o Malecón e a Real Fábrica de Tabacos Partagás. 

O Museu da Revolução está instalado no antigo palácio presidencial do ditador Fulgêncio Batista, um detalhe claramente simbólico. No museu, há documentos, fotografias e objetos que contam a história da revolução liderada por Fidel Castro, Che Guevara e Camilo Cienfuegos. Na entrada, ainda são visíveis buracos de tiros que marcam momentos importantes da revolução. 

Entrada do Museu da Revolução com buracos de tiros na parede
Entrada do Museu da Revolução com buracos de tiros na parede

Museu da Revolução

O Malecón, uma marginal com 7 km, liga o centro de Havana aos arranha-céus do Vedado, passando por edifícios coloniais degradados e pelo grandioso Hotel Nacional, inaugurado em 1930, onde já se hospedaram figuras como Winston Churchill, Walt Disney ou Frank Sinatra e que durante a Crise dos Mísseis, serviu como ponto estratégico de defesa e ainda hoje mantém canhões e trincheiras dessa época nos jardins. Apesar da sua grandiosidade e fama, o hotel reflete os desafios da conservação em Cuba, mantendo um charme decadente que transporta os visitantes para outra era.

Malecon
Malecon
Hotel Nacional
Hotel Nacional
separador-cuba

Vedado e Plaza

O Vedado e Plaza desempenham dois papéis: são o centro político e cultural moderno de Havana com hotéis, restaurantes, lojas, teatros, cinemas e ministérios mas também uma zona histórica com casas coloniais imponentes. O nome Vedado surgiu no século XVI, quando era proibido construir casas para manter a visibilidade contra piratas. No final do século XX tornou-se uma área residencial de prestígio.

Edifícios no Vedado

Nesta zona, encontra-se a Plaza de la Revolución, um dos locais mais emblemáticos de Havana. Construída na década de 1950, era originalmente chamada de Plaza Cívica mas ganhou o nome atual após a Revolução Cubana. Foi aqui que Fidel Castro fez inúmeros discursos para multidões, muitas vezes de horas a fio e onde ainda hoje ocorrem grandes eventos políticos e manifestações. No centro da praça ergue-se o Memorial José Martí, um obelisco de 109 metros dedicado ao herói da independência cubana, rodeado por uma estátua do próprio Martí. 

Memorial Jose Martí
Memorial Jose Martí

À sua volta, destacam-se edifícios governamentais, incluindo o famoso Ministério do Interior, cuja fachada exibe a icónica imagem de Che Guevara acompanhada da frase “Hasta la victoria siempre”. Nas proximidades, encontra-se também um mural de Camilo Cienfuegos, outro dos líderes revolucionários.

Plaza de la Revolución

Na zona do Vedado está também o Cemitério de Cristóbal Colón, um dos maiores da América Latina ocupando cerca de 57 hectares com mais de 800.000 túmulos. Aqui estão enterradas figuras proeminentes da cultura, política e sociedade cubana, incluindo artistas, escritores e heróis da independência. O cemitério é tão impressionante que hoje em dia é um dos locais mais visitados de Habana.

Cemitério de Cristóbal Colón

separador-cuba

Bairro de Miramar

A oeste da cidade fica o bairro de Miramar, que antes da Revolução era a zona dos ricos de Havana. Ainda hoje se veem as grandiosas mansões do início do século XX, algumas bem preservadas, outras a precisar de atenção. É também aqui que estão vários hotéis de luxo e foi num deles que ficámos: o H10 Habana Panorama.

O hotel até era agradável e tinha a vantagem de estar mesmo em frente ao mar. O quarto era espaçoso e confortável mas é preciso ter em conta que, apesar de ser um hotel de 4 estrelas, os padrões de qualidade em Cuba estão longe dos europeus. O serviço era simpático mas a manutenção do espaço deixava um pouco a desejar. Ainda assim, serviu perfeitamente para a estadia.

H10 Panorama Hotel
H10 Panorama Hotel
H10 Panorama Hotel
separador-cuba

Transportes em Cuba

Como Miramar fica um pouco afastado do centro, há um autocarro gratuito que passa pelos hotéis da zona e leva os hóspedes até ao coração da cidade. Foi uma opção prática e útil para explorar Havana sem complicações.

Para nos deslocarmos pela cidade, o transporte foi uma verdadeira experiência cubana. Os carros clássicos, com décadas de história, são uma das imagens de marca do país. 

Carro antigo

Carros antigos

Alguns estão em ótimas condições, outros nem tanto, mas todos nos transportam para um mundo que parece saído de um filme. Andámos num desses carros e foi uma experiência única onde o charme dos veículos contrastava com o cenário da cidade.

Passeio de carro

Passeio num carro antigo

Outro meio de transporte muito popular são os riquexós, um tipo de triciclo onde o motorista puxa o passageiro, geralmente nas zonas mais turísticas. Embora seja uma forma divertida de explorar a cidade, os riquexós não são muito rápidos e nem sempre estão em boas condições, tornando as viagens um pouco desconfortáveis. 

Riquexó
Riquexó
Riquexó tuning
Riquexó tuning

Além destes, existem também os cocotáxis, pequenos veículos amarelos em forma de coco, que funcionam como táxis motorizados. São minúsculos, barulhentos e oferecem a mesma proteção contra o vento e sol que oferece um chapéu de sol furado. Mas quem é que resiste a uma viagem nestas pequenas cápsulas tropicais? O motor ronca como se estivesse a pedir reforma, as curvas são feitas com uma dose de adrenalina gratuita e se a velocidade não for suficiente para despentear, o vento trata do assunto. Pode não ser a forma mais confortável de explorar Havana mas é, sem dúvida uma das mais hilariantes!

Cocotaxi

Cocotaxi

Para quem prefere um meio de transporte mais tradicional (e menos emocionante), também existem táxis convencionais, desde os clássicos carros americanos dos anos 50 até modelos mais modernos. O preço, como tudo em Cuba, depende muito da arte do regateio e da boa disposição do taxista.

Taxi cubano
Taxi cubano

Em Cuba é também muito comum as pessoas andarem à boleia. Pelas estradas, é normal ver pessoas à espera de um transporte, muitas vezes contando com a generosidade de quem passa. E nós próprios acabámos por entrar na experiência! Numa das vezes em que íamos do hotel para o centro de Havana, acabámos por apanhar boleia de um casal cubano. Foi uma daquelas situações inesperadas que tornam a viagem ainda mais autêntica e memorável.

Cubanos a dar boleia
Cubanos a dar boleia
separador-cuba

Conclusão

Havana foi uma cidade que nos causou um misto de emoções. A primeira impressão foi dura, mas com o tempo fomos absorvendo a sua essência. O que inicialmente parecia apenas caos revelou-se uma cidade vibrante, onde a música ecoa em cada esquina e cada rua tem uma história para contar. No final, Havana conseguiu conquistar-nos.

Posts

Relacionados

Não existem posts para mostrar