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História de Burgos
Burgos é um tesouro da arte gótica, com edifícios imponentes que contam séculos de história. Entre eles, destacam-se o Hospital del Rey, o Solar del Cid e, claro, a majestosa Catedral de Burgos, uma obra-prima da arquitetura gótica a que não conseguimos ficar indiferentes e que merece um post inteiramente dedicado a ela que pode ler aqui.
O crescimento da cidade deu-se a partir dos pequenos edifícios que surgiram na encosta da colina do castelo, estendendo-se até ao Rio Arlanzón. No entanto, foi com a construção da Catedral que a cidade ganhou um novo centro, tornando-se este o ponto de referência de Burgos.
Catedral de Burgos
A Catedral de Santa Maria de Burgos, oficialmente chamada de Catedral da Santíssima Igreja Metropolitana Basílica de Santa Maria de Burgos é um dos templos mais impressionantes de Espanha e um verdadeiro ícone da cidade. Dedicada à Virgem Maria, a sua construção começou em 1221 e demorou séculos a ser concluída resultando num monumento onde se misturam estilos e épocas.
Burgos foi elevada a sede episcopal em 1075 por ordem do rei Alfonso VI que promoveu a construção de uma catedral dedicada a Maria. A primeira foi finalizada em 1096 mas rapidamente se tornou pequena para as necessidades da cidade que crescia como um importante centro comercial e simbólico do reino. Assim, no início do século XIII, decidiu-se construir uma nova catedral no mesmo local demolindo a anterior, como era comum na época.
Apesar de no seu interior existirem elementos renascentistas e barrocos, o estilo predominante é o gótico. A fachada principal tem claras influências das grandes catedrais francesas, como as de Paris e Reims, com as suas torres imponentes e detalhes esculpidos com uma precisão incrível.
A importância histórica e artística da catedral valeu-lhe o título de Monumento Nacional em 1885 e, mais tarde, a distinção de Património da Humanidade pela UNESCO em 1984.
Situada na Plaza del Rey San Fernando, a catedral é o verdadeiro coração de Burgos. A praça em seu redor está sempre animada, cheia de turistas e locais que aproveitam para admirar a sua imponência, beber um copo e comer umas tapas nos cafés e bares vizinhos ou simplesmente relaxar. Durante a nossa visita, nem a chuva da manhã foi capaz de esvaziar a praça, quem não queria molhar-se resolvia o problema comprando uma capa de plástico nas muitas lojas de recordações espalhadas por ali.
O interior da catedral é um autêntico labirinto de maravilhas. Túmulos imponentes, altares decorados, vitrais coloridos e uma escadaria dourada absolutamente deslumbrante fazem desta visita uma experiência inesquecível. Mas há um detalhe essencial: olhar para cima! Os tectos são trabalhados ao detalhe, todos diferentes, mas todos absolutamente magníficos. No fim, é provável que se saia com uma ligeira dor no pescoço, mas vale bem a pena!
Interior da Catedral de Burgos
Num dos momentos em que descansávamos à porta da catedral, assistimos a um casamento. Primeiro, começaram a chegar convidados vestidos a rigor e, entre eles, um rapaz que se destacava pelo seu traje – o noivo. Ficámos por ali um pouco mais à espera da chegada da noiva, porque, sejamos honestos, quem resiste a espreitar um casamento inesperado num cenário tão grandioso? Eu claramente não!
Ruas de Burgos
Para quem deseja um passeio agradável, o Paseo del Espolón é o parque mais central e popular da cidade, ligando o Arco de Santa Maria à Plaza del Cid. Já a Plaza del Mercado Menor, com o seu formato poligonal irregular, foi palco dos primeiros mercados semanais e transformou-se no principal centro comercial da cidade durante séculos.
Museu da Evolução Humana
Perto do Arco de Santa Maria, na margem sul do rio Arlanzón, encontra-se o Museu da Evolução Humana que visitámos e que achámos interessante. Inaugurado em 2010 este museu nasceu como uma aposta da Junta de Castilla y León, do Ayuntamiento de Burgos e da equipa de investigação da Serra de Atapuerca. O seu principal objetivo é conservar e expor os achados arqueológicos desta serra situada a apenas 15 km de Burgos onde foi descoberto o conjunto de vestígios humanos mais antigos e numerosos da Europa.
O seu interior, espaçoso e interativo, transporta-nos numa verdadeira viagem pela história da evolução humana. Um dos temas centrais do museu é a Teoria da Evolução das Espécies de Charles Darwin, ilustrada de forma interativa e até com uma reprodução do HMS Beagle, o navio que levou Darwin às ilhas Galápagos, onde formulou grande parte das suas ideias sobre a seleção natural.
Na impressionante Galeria da Evolução encontram-se modelos realistas à escala real de várias espécies humanas, permitindo acompanhar a evolução ao longo de sete milhões de anos. Há também uma recriação minuciosa de uma escavação na Serra de Atapuerca, com fotografias, objetos reais e explicações detalhadas que nos transportam para o meticuloso trabalho dos arqueólogos no local.
Além disso, o museu recria com miniaturas realistas aspetos do quotidiano dos nossos antepassados, desde a caça para a sobrevivência até aos rituais fúnebres, ajudando-nos a compreender como era a vida dos primeiros humanos.
Castelo
Outro dos locais a visitar em Burgos é o castelo, situado no alto da colina. A subida até lá é bastante exigente, mas para quem prefere uma alternativa mais cómoda, o comboio turístico percorre os principais pontos da cidade, incluindo o castelo, e funciona como um hop-on hop-off. É uma excelente opção para quem quer explorar Burgos de forma confortável e descontraída.
O Castelo de Burgos foi mandado construir em 884 durante o reinado de Alfonso III nos tempos da Reconquista. Erguido sobre a colina de San Miguel, a cerca de 75 metros acima da cidade, oferecia uma vista privilegiada sobre Burgos, tornando-se um ponto estratégico essencial para a defesa do território.
A sua localização não foi escolhida ao acaso. O castelo foi construído sobre antigas torres de defesa, reforçando ainda mais a proteção da cidade. Além da sua função militar era quase auto-suficiente permitindo que os seus habitantes sobrevivessem durante longos períodos com alimentos armazenados, como carne, cereais e leite. No entanto havia um grande problema: dentro das muralhas não havia água. Para resolver essa fragilidade, foi construído um poço profundo e um complexo sistema de galerias subterrâneas. Um dos poços, com quase 70 metros de profundidade, era essencial para garantir o abastecimento de água em tempos de cerco.
Foi por essas galerias subterrâneas, conhecidas como Cueva del Moro, que caminhámos durante a visita. O ambiente era frio, húmido e apertado – definitivamente, não recomendado a claustrofóbicos. A experiência tornou-se ainda mais imersiva graças à presença de um estudante de teatro, vestido de mineiro, que nos desafiou a ajudá-lo a recuperar um tesouro perdido no poço. Equipados a rigor, lá fomos nós em busca desse tão misterioso tesouro, que, no final, não passava de… um simples prego!
A história do castelo também nos foi contada pela guia que nos acompanhava. Um dos episódios mais marcantes aconteceu durante as invasões napoleónicas, quando o poço, que outrora salvara a fortaleza, acabou por ser a sua perdição. Durante o cerco, as tropas de Napoleão perceberam que os portões não seriam facilmente derrubados e procuraram alternativas para forçar a rendição dos defensores. Foi então que descobriram a entrada para as galerias subterrâneas e usaram uma estratégia cruel: lançaram ratos mortos envenenados para dentro do poço, contaminando a única fonte de água potável do castelo. Sem outra opção, os habitantes acabaram por se render.
Hoje, o Castelo de Burgos guarda vestígios da sua longa e turbulenta história, oferecendo aos visitantes uma perspetiva fascinante sobre o passado da cidade e a sua importância estratégica ao longo dos séculos.
Gastronomia
Explorar as ruas de Burgos é ainda um convite a descobrir a sua gastronomia onde podemos encontrar as famosas tapas em qualquer dos muitos restaurantes espalhados pela cidade. Entre os pratos típicos da região, talvez o mais emblemático seja a Morcilla de Burgos, semelhante à morcela de arroz portuguesa, mas com um toque mais picante.
Tapas em Burgos
Algo que nos chamou a atenção foi o contraste entre a hospitalidade das diferentes regiões de Espanha. Comparando com o sul do país, os habitantes de Burgos pareceram-nos um pouco mais reservados, embora sempre educados e prestáveis.
Conclusão
Burgos é, sem dúvida, uma cidade rica em história, cultura e sabores, convidando a uma visita sem pressas para absorver tudo o que tem para oferecer.
