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Há lugares que não se visitam por gosto. Visitam-se por respeito, por memória, por responsabilidade. Auschwitz é um desses lugares. Situado na Polónia, a pouco mais de uma hora de Cracóvia, foi o maior campo de concentração e extermínio construído pelos nazis. Hoje é museu e memorial, mas continua a ser, acima de tudo, um lugar onde ecoa o silêncio dos que ali perderam tudo… até o nome.
Informações práticas
- Localização: O campo fica em Oświęcim, a 70 km de Cracóvia (cerca de 1h10 de carro).
- Custo: visita livre gratuita, mas com marcação obrigatória no site oficial (auschwitz.org).
- Guia: pode visitar-se com ou sem guia. O guia é a pagar mas dá mais contexto; a visita a solo é gratuita mas permite mais introspeção.
- Como chegar: de carro alugado, excursão organizada ou transporte público a partir de Cracóvia.
- Duração: reserve pelo menos 3 a 4 horas; idealmente, meio dia.
- Conselhos: calçado confortável, água e respeito. Auschwitz não é lugar para selfies. Vista-se de forma discreta e esteja preparado para emoções fortes.

O que foi Auschwitz
Auschwitz foi criado em 1940, inicialmente para prender opositores políticos polacos. O primeiro campo, Auschwitz I, nasceu a partir de antigos quartéis militares da cidade de Oświęcim, adaptados para receber prisioneiros.
Os barracões em tijolo eram sólidos e davam uma aparência de “ordem”, mas não se deixe enganar. Ali ficavam prisioneiros políticos, intelectuais e membros da resistência, sujeitos a trabalhos forçados, fome, tortura e execuções. Logo à entrada encontra-se o portão com a infame inscrição “Arbeit macht frei” (“O trabalho liberta”), um dos mais cruéis símbolos da propaganda nazi, que prometia liberdade através do trabalho quando, na realidade, significava apenas escravidão e morte.

Um dos edifícios mais temidos dali era o Bloco 11, conhecido como “a prisão dentro da prisão”. Ali eram encarcerados prisioneiros acusados de tentar fugir, sabotar ou simplesmente desobedecer. No rés-do-chão ficavam as salas de tortura e julgamento. No pátio, a parede das execuções onde centenas foram fuzilados. No subsolo, as celas de castigo, algumas totalmente escuras, onde os prisioneiros eram deixados a morrer sem ar ou comida, e outras chamadas “celas de estar em pé”, onde quatro pessoas eram forçadas a permanecer dias seguidos num espaço minúsculo, sem se conseguirem sentar ou deitar. Foi também em Auschwitz I que os nazis instalaram a primeira câmara de gás experimental. Hoje, este campo funciona como museu, preservando barracões, celas e objetos pessoais das vítimas.

Exposição com fotografias de prisioneiros
Já em 1941 começou a construção de Auschwitz II-Birkenau, a cerca de 3 km do primeiro. Ao contrário dos edifícios de tijolo de Auschwitz I, em Birkenau construiram-se centenas de barracões de madeira, muitos deles adaptados de estábulos para cavalos. Eram frágeis, insalubres e gelados, incapazes de proteger os prisioneiros do inverno polaco. Cada um podia albergar centenas de pessoas amontoadas, com pouca ventilação e sem condições mínimas de higiene.
É também aqui que se encontra a entrada mais famosa do complexo: o portão principal de Birkenau, com a torre de vigia sobre o arco central, por onde passa a linha de comboio que trazia os prisioneiros diretamente para a seleção. Conhecido como a “Porta da Morte”, tornou-se um dos símbolos mais marcantes do Holocausto.

Entrada de Birkenau
Foi em Birkenau que os nazis montaram a verdadeira máquina de extermínio com quatro grandes câmaras de gás e crematórios, capazes de matar milhares de pessoas por dia. A capacidade do campo chegou a ultrapassar os 100 mil prisioneiros em simultâneo.
O terceiro campo, Auschwitz III-Monowitz, foi construído em torno da fábrica da IG Farben, onde os prisioneiros eram usados como mão de obra escrava na produção de borracha sintética e combustíveis. Ali o lema era trabalhar até à exaustão, e os que já não serviam eram enviados de volta para Birkenau, onde a morte os esperava.
Depois da guerra, este campo foi demolido e quase nada restou da sua estrutura original. Hoje, o local é ocupado por indústrias e habitações, existindo apenas um memorial simples que assinala o espaço. Ao contrário de Auschwitz I e Birkenau, Monowitz não está preservado nem faz parte do circuito de visita.
Estima-se que 1,3 milhões de pessoas tenham sido deportadas para Auschwitz. Destas, cerca de 1,1 milhão foram assassinadas. Aproximadamente 960 mil judeus, 70 a 75 mil polacos não judeus, 21 mil ciganos (romas e sintis), 15 mil prisioneiros de guerra soviéticos e milhares de outras vítimas, incluindo homossexuais, pessoas com deficiência, testemunhas de Jeová e opositores políticos.

A chegada e seleção
Quem chegava a Auschwitz vinha em vagões de gado, sem comida nem água, apertados como mercadoria. À saída, eram separados: homens de um lado, mulheres e crianças do outro. Médicos nazis, como Josef Mengele, faziam uma seleção rápida. Quem era considerado útil para trabalhar era poupado… temporariamente. Crianças pequenas, grávidas, idosos ou doentes eram normalmente enviados diretamente para as câmaras de gás, muitas vezes sem perceberem o que os esperava.
Os que passavam a seleção viviam em condições brutais com fome constante, frio extremo, barracões sobrelotados, castigos violentos, trabalhos forçados até à exaustão.


O Horror em Auschwitz
A maioria das mortes ocorreu nas câmaras de gás, com Zyklon B, mas milhares morreram também de fome, doenças, trabalhos forçados, tortura, execuções, experiências médicas e até suicídio. Em Auschwitz, a morte era rotina… sobreviver era apenas adiar o inevitável!
Entre os horrores, as experiências médicas foram das mais cruéis. Josef Mengele, o “Anjo da Morte”, ficou célebre pelos seus estudos. Injetava doenças, mutilava, operava sem anestesia. Testava métodos de esterilização, provocava infeções deliberadas, fazia transfusões experimentais. Mulheres foram vítimas de experiências ginecológicas forçadas, esterilizações e abusos que muitas vezes acabavam em morte.

Câmara de gás

Fornos de cremação

As mulheres de Auschwitz
Depois da visita a Auschwitz, procurei perceber melhor o que ali tinha acontecido. Li alguns livros com testemunhos verídicos de quem passou por ali passou e, se a visita já tinha sido um choque, cada página foi como reviver esse peso vezes sem conta. Um desses livros foi “999 – A História Extraordinária das Jovens do Primeiro Transporte Oficial para Auschwitz”, que conta a história do primeiro grande grupo feminino deportado para o campo.

No dia 26 de março de 1942, 999 jovens judias eslovacas, muitas ainda adolescentes, foram enganadas com promessas de trabalho numa fábrica de tecidos e obrigadas a embarcar rumo ao desconhecido.
Na realidade, o destino era Auschwitz II-Birkenau ainda em construção. As raparigas foram forçadas a remover lama, transportar pedras e levantar os próprios barracões de madeira numa ironia cruel… ajudaram a erguer o campo que meses mais tarde, se transformaria no maior centro de extermínio da Europa.
A vida destas mulheres foi marcada pela brutalidade diária. Dormiam em beliches de madeira apinhados, enfrentavam fome constante, frio e doenças. Sofriam abusos físicos e psicológicos, eram alvo de assédio por parte dos guardas e muitas vezes tinham de trabalhar com cadáveres, limpando câmaras ou transportando corpos. Algumas eram obrigadas a assistir a execuções ou a participar em tarefas que as colocavam perante escolhas impossíveis… a própria sobrevivência ou a vida de alguém próximo.

Entre as humilhações mais degradantes estava a “revista” à entrada do campo. Guardas obrigavam-nas a despir-se por completo, muitas vezes em grupo, sem qualquer privacidade. Depois, eram forçadas a abrir as pernas enquanto mãos sujas e pesadas, com anéis e unhas por cortar, lhes eram enfiadas dentro da vagina. Não havia cuidado, não havia limites: reviravam o interior como quem mexe num saco de trapos, à procura de moedas, pedras preciosas ou pequenos objetos que pudessem ter escondido para sobreviver. Muitas gritavam de dor, algumas sangravam de imediato. O gesto era mecânico, repetido dezenas de vezes, sem qualquer valor humano, reduzindo cada mulher a um corpo violado e explorado.
Os testemunhos preservados revelam que por detrás de cada número tatuado no braço havia uma jovem com nome, família e sonhos interrompidos.

A visita hoje
Atualmente, Auschwitz é museu e memorial e pode ser visitado de duas formas: em tour guiado ou em visita independente. A entrada em si é gratuita, mas a reserva é obrigatória no site oficial (www.auschwitz.org). Quem optar por um tour guiado paga o serviço do guia, quem preferir visitar por conta própria não paga nada, apenas faz o registo online.

No campo I, encontram-se exposições com objetos pessoais das vítimas: malas com nomes escritos à mão, sapatos de criança, óculos, próteses, cabelo humano. Também aqui estão celas, locais de execução e a parede de fuzilamento. A entrada faz-se pelo portão com a inscrição “Arbeit macht frei”, que continua a chocar pela crueldade simbólica.
Malas dos presos
Cabelo humano
Calçado de presos
Artigos pessoais dos presos
Utensilios de cozinha dos presos
Artigos em exposição em Auschwitz
Em Birkenau, a poucos minutos de distância, as ruínas das câmaras de gás, os barracões, as torres de vigia e a linha de comboio transmitem uma dimensão esmagadora. É o maior dos três campos, e a sensação de vazio é apenas aparente: o silêncio que paira ali não é neutro, é um silêncio pesado, como se o próprio ar guardasse memórias.
Interior dos barrcões de Birkenau
Latrina em Birkenau
Barracões de Birkenau
Barracões de Birkenau

A nossa experiência
Nós optámos por visitar por conta própria, de carro alugado desde Cracóvia. Sem guia, sem grupo. Apenas nós e aquele silêncio. Talvez por isso tenha sido ainda mais intenso… não havia explicações a acompanhar, apenas os passos e os barracões.
Três lugares em especial ficaram gravados. O barracão de Birkenau onde eram colocadas grávidas, crianças e doentes… uma dor só de entrar. O bloco médico, com um cheiro estranho, entre hospital antigo e algo indefinível, onde se ouvem sons de fundo que arrepiam. E o Bloco 11, em Auschwitz I, conhecido como a prisão dentro da prisão, com as celas verticais onde quatro prisioneiros eram forçados a permanecer de pé durante dias. Só a entrada aí causa um desconforto impossível de explicar…

Conclusão
Auschwitz não é um museu como os outros. É um lugar que nos tira o chão, que nos deixa em silêncio, que nos confronta com aquilo que preferíamos acreditar impossível. Mas, paradoxalmente, também nos devolve algo… a consciência.
A consciência de até onde pode ir a crueldade humana quando a dignidade é retirada, quando a vida é reduzida a número e quando a indiferença ganha terreno. Visitar Auschwitz é doloroso, mas necessário. É reconhecer que, por trás de cada barracão e de cada objeto exposto, houve vidas interrompidas, crianças, mulheres e homens que tiveram sonhos, famílias e histórias antes de serem apagados.
Auschwitz não é apenas sobre o passado. É sobre o presente e o futuro. É sobre a responsabilidade de lembrar para que a História não se repita, para que nunca mais haja espaço para o ódio, a exclusão ou a desumanização.
Sair de lá não significa deixar Auschwitz para trás. Significa levá-lo connosco como memória viva, como alerta e como compromisso. Porque esquecer seria a segunda morte das suas vítimas…

Leituras recomendadas
Depois da visita, ler é como voltar aos barracões com novos olhos. Entre as obras mais marcantes estão:
- 999 – A História Extraordinária das Jovens do Primeiro Transporte Oficial para Auschwitz – Heather Dune Macadam.
- O Tatuador de Auschwitz – Heather Morris.
- Três Irmãs de Auschwitz – Heather Morris.
- Se Isto É um Homem – Primo Levi.
- Noite – Elie Wiesel.
- O Diário de Anne Frank – Anne Frank.
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