
Índice
Introdução
Cracóvia (Kraków) foi, para nós, uma cidade de contrastes. Decidimos visitá-la principalmente por causa de Auschwitz, a razão maior que nos levou até à Polónia. Antes da viagem vimos o filme A Lista de Schindler e percebemos que também queríamos conhecer a Fábrica de Schindler. Só depois, ao pesquisar o que mais havia para ver, descobrimos as Minas de Sal de Wieliczka e acrescentámo-las ao roteiro.
Para esta viagem optámos por alugar carro, o que nos deu liberdade tanto para explorar Cracóvia como para ir facilmente a locais mais afastados, como Auschwitz e Wieliczka. Chegámos à Polónia pelo Aeroporto de Katowice, situado a cerca de 100 km de Cracóvia (aproximadamente 1h30 de carro), já que encontrámos voos mais baratos e, tendo carro alugado, a escolha acabou por ser a mais prática.
Mas Cracóvia revelou-se muito mais do que estes três lugares incontornáveis. Entre praças medievais, castelos, memórias do gueto e até museus inesperados, a cidade mostrou-nos diferentes camadas da sua história e identidade.

A praça principal – Rynek Główny
O coração da cidade é a Rynek Główny, a praça principal e uma das maiores da Europa. Cercada por edifícios históricos, cafés e restaurantes, é aqui que se encontra a famosa Sukiennice (Mercado dos Tecidos), hoje transformado em mercado turístico e museu e a Basílica de Santa Maria, com as suas duas torres desiguais e o som do trompete que ecoa de hora a hora.

Sabias que?
Todos os dias, de hora a hora, um trompetista toca uma melodia chamada hejnał mariacki da torre mais alta da Basílica de Santa Maria. A música pára abruptamente no meio da nota, uma tradição que recorda o trompetista medieval que, segundo a lenda, foi morto por uma flecha tártara enquanto soava o alarme de uma invasão mongol.

Museu Underground
Logo por baixo da praça, visitámos o Museu Rynek Underground, um espaço moderno que mostra as origens medievais da cidade. Através de passagens subterrâneas, vitrines interativas e ruínas arqueológicas, é possível perceber como era a vida em Cracóvia séculos atrás. Não é um museu muito grande, mas é uma visita curiosa para quem gosta de história.


Castelo de Wawel
Às margens do rio Vístula ergue-se o Castelo de Wawel, antiga residência real e um dos maiores símbolos da identidade polaca. O complexo inclui vários edifícios, entre eles o castelo renascentista, a imponente Catedral de Wawel onde estão sepultados reis e heróis nacionais, além de pátios, jardins e muralhas com vistas panorâmicas sobre a cidade.

Sabias que?
Cracóvia foi a capital da Polónia durante mais de 500 anos? Entre o século XI e 1596, foi aqui que viveram e foram coroados os reis polacos, no Castelo de Wawel. Só quando o rei Sigismundo III transferiu a corte para Varsóvia é que a cidade perdeu o título de capital. Mesmo assim, Cracóvia manteve-se como o centro cultural, académico e espiritual do país e ainda hoje muitos polacos a consideram a “capital histórica”.
À saída, já junto ao rio, encontra-se uma das atrações mais curiosas: a estátua do Dragão de Wawel (Smok Wawelski), inspirada na lenda medieval de uma criatura que vivia numa gruta sob o castelo e aterrorizava a cidade. Hoje, em vez de medo, o dragão arranca sorrisos sobretudo quando cospe fogo, para alegria de quem passa.


Farmácia Eagle – Apteka pod Orłem
No coração do antigo gueto judeu de Cracóvia fica a Farmácia Eagle (Apteka pod Orłem), um espaço pequeno mas carregado de significado histórico. Foi aqui que o farmacêutico Tadeusz Pankiewicz, um polaco não judeu, decidiu permanecer durante toda a ocupação nazi, uma escolha corajosa que o tornou uma figura central da resistência civil.
Da farmácia, Pankiewicz fornecia não só medicamentos mas também alimentos, informação e apoio aos habitantes do gueto. O espaço tornou-se um refúgio improvável onde se passavam mensagens clandestinas e até se escondiam pessoas em perigo. A sua história é retratada no filme A Lista de Schindler, que recria bem a importância deste local para a sobrevivência de muitos judeus.




Farmácia Eagle
Hoje, a farmácia funciona como museu e memorial, com exposições que mostram documentos, fotografias, objetos originais e testemunhos dos que ali encontraram ajuda.
Sabias que?
O farmacêutico Tadeusz Pankiewicz, da Farmácia Eagle, foi o único polaco não judeu autorizado a viver dentro do gueto. Arriscou a vida todos os dias para ajudar os judeus, fornecendo medicamentos, comida e até esconderijos.

Passeio pelo gueto de Cracóvia
Percorremos as ruas do antigo gueto judeu de Cracóvia, criado pelos nazis em março de 1941 no bairro de Podgórze. Mais de 15 mil judeus foram forçados a viver ali, comprimidos num espaço que antes tinha capacidade para apenas cerca de 3 mil pessoas. Cercado por muros com a forma de lápides e vigiado de perto, o gueto foi um dos epicentros do sofrimento da comunidade judaica durante a ocupação.
Este gueto foi um ponto de passagem crucial. Daqui partiam as deportações para o campo de Płaszów e, mais tarde, para Auschwitz. Entre 1942 e 1943, milhares de habitantes foram assassinados em execuções sumárias ou enviados em comboios para os campos de extermínio. O gueto foi finalmente liquidado em março de 1943, num episódio brutal que deixou marcas profundas na cidade.

Hoje, pouco resta das estruturas originais, mas a memória é evocada por monumentos e memoriais. O mais marcante é a Praça dos Heróis do Gueto, onde dezenas de cadeiras de metal vazias simbolizam os judeus que ali esperavam pelas deportações, uma ausência transformada em presença silenciosa.

E, ao atravessar Podgórze, ergue-se a imponente Igreja de São José (Kościół św. Józefa), construída em estilo neogótico no início do século XX. Hoje é um dos símbolos do bairro e uma referência visual marcante no passeio pela zona. Contrasta com o peso da memória, mas lembra-nos que a cidade se reconstruiu e continua viva, mesmo sobre os lugares que guardam as histórias mais difíceis.


Museu de Cera
Entre visitas mais pesadas, aproveitámos também para algo mais leve, o Museu de Cera de Cracóvia. Lá dentro encontram-se réplicas em tamanho real de figuras históricas, políticas e culturais. Entre as mais reconhecíveis estão por exemplo Donald Trump, o Papa Francisco e até Hitler, uma experiência curiosa (e até estranha) de ver lado a lado personagens tão distintas.

O museu também dá destaque a personalidades polacas que ajudam a compreender melhor a história do país. Um dos exemplos é a figura de Józef Piłsudski (1867–1935), considerado herói nacional por ter liderado o renascimento da Polónia como país independente em 1918, após mais de um século de ocupação estrangeira. Foi chefe de Estado, militar e estratega, com um papel decisivo na afirmação da identidade polaca. A sua importância é tão grande que continua a ser lembrado em monumentos, museus e até no dinheiro do país.

Não é uma visita essencial, mas acabou por ser uma forma divertida de equilibrar a intensidade dos outros locais que vimos em Cracóvia.

Conclusão
Cracóvia surpreendeu-nos pela forma como conjuga história, memória e vida quotidiana. É uma cidade que nos obriga a refletir sobre os capítulos mais negros da humanidade, mas que também mostra uma energia jovem e vibrante nas suas ruas, praças e cafés. Se Auschwitz, a Fábrica de Schindler e Wieliczka são visitas incontornáveis, vale a pena também perder-se pela praça principal, explorar o castelo, descer ao museu subterrâneo e percorrer os bairros históricos. No fim, fica a sensação de que Cracóvia é uma cidade que se vive em camadas, algumas leves e festivas, outras pesadas e difíceis, mas todas indispensáveis para compreender a sua identidade.
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